O historiador e a historieta

No Público de hoje, Rui Ramos avança a tese de que os terroristas, longe de constituírem um subproduto vingativo e desvairado de conflitos eternos, são «profissionais da guerra» determinados a investir contra qualquer possibilidade de acordo de paz; seja no Médio Oriente ou em qualquer outra paragem.
Começando pela recente carnificina de Bombaim, o historiador explica-nos que esta surgiu num momento de acalmia na «linha de demarcação entre a Índia e o Paquistão». Esquecendo, de forma mui conveniente, a violência que eclodiu no estado fronteiriço de Gujarat em 2002, e as suspeitas que já atribuem precisamente essa proveniência aos atacantes. Mais: um dos terroristas terá perguntado «lembram-se de Godhra?», evocando um massacre então ocorrido. Tudo irrelevante para Rui Ramos: para ele, a explicação estaria não «no que esteve mal no passado, mas no que estava a correr menos mal».
Outra prova da teoria jaz, ao que parece, no ataque bombista ao WTC, em 1993, levado a cabo «exactamente quando os presidentes Bush (pai) e Clinton se propuseram mediar entre Israel e os árabes da Palestina».
Isto é espantoso. Sobretudo porque em Fevereiro de 93, data do atentado em questão, as conversas de Oslo estavam ainda na fase clandestina, tendo aliás nascido por iniciativa não de presidentes mas sim do vice-ministro israelita Yossi Beilin e do diplomata norueguês Terje Rød-Larsen. Por outro lado, negociações “às claras” prosseguiam, sem grandes resultados, desde a conferência de paz de Madrid, em 91.
Quer isto dizer que Rui Ramos parte do princípio que Khalid Sheikh Mohammed sabia das conversações ultra-secretas, iniciadas apenas um mês antes. E que os autores materiais do ataque devem ter tido conhecimento paranormal das mesmas, uma vez que deram entrada nos EUA antes do seu início! Mais: dado que uma forma ou outra de negociação foi decorrendo quase sem intervalo desde a conferência de Rhodes, em 49, nunca se arriscaria este historiador a falhar. Qualquer atentado teria um processo negocial coevo. QED!
E está visto que o 11 de Setembro nasceu de uma perfídia similar: «decorreu em paralelo com a produção dos acordos de Camp David de 2000». Mesmo o fracasso destes é coisa de somenos para a teoria, pois «se tivessem resultado, teriam sido apenas mais uma razão para o ataque». Ou seja: negociações que se desagregam conseguem mesmo assim motivar um atentado um ano depois. Fica portanto sem se entender como é que os celerados que «encaram o arrastamento do conflito como a única forma para chegarem aos seus fins políticos» afinal também gastam esforços para desarticular negociações já fracassadas.
O que se percebe bem é que Rui Ramos não se incomoda muito com minudências como cronologias, desde que tal esquecimento ajude a montar mais uma descoberta da pólvora… seca.

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