Discussão académica

“O amor é também um prazer”, assim começa Roger Vailland o seu esboço para um retrato de um verdadeiro libertino. Nesta pequena obra, o escritor francês defende que o amor-prazer opõe-se tão rigorosamente ao amor-paixão como a liberdade à escravatura. No amor-paixão os amantes aceitam passivamente “o curso inexorável” de um destino que não elegeram. Pelo contrário, o libertino escolhe o objecto do seu prazer. “Libertino”, designava, segundo o autor, originalmente o filósofo ateu. A palavra foi-se transformando, pela lei da vida, naquele que escorraça Deus e a moral dos outros da sua cama.
O libertino não pretende apaixonar-se, nem perder-se. Vê na paixão uma alienação que não lhe permite ser livre e controlar a sua vida. A sua verdadeira forma de comportamento está inscrita na frase do Divino Marquês num romance: “Ele poisou em mim o olhar frio do verdadeiro libertino”.
Nada é mais estranha ao espírito da libertinagem do que a linguagem das “afinidades electivas” de Goethe. A ideia da predestinação das almas gémeas é totalmente repugnante para aquele que apenas a liberdade segue. Não querendo comparar Goethe com o vamos para a varanda, do Corta-Fitas, não é por acaso que, num dos últimos assaltos desta série romântica da blogosfera, é citado o pensador alemão. Encaixa-se perfeitamente num espírito de uns textos em que, ao milionésimo assalto, se pergunta: “Poderão os amantes alguma vez despedirem-se?”. Um verdadeiro libertino perante uma encantadora série, com já 47 episódios a seco, retorquiria: “poderão alguma vez os amantes despirem-se?”.
Cara Filipa, respondendo ao teu texto com uma citação de Vailland, “a cama é para o amor-prazer o que o dinheiro é para o jogo. Foi precisa uma certa burguesia para imaginar o jogo com feijões e o amor sem ir para a cama”.

Nota: leiam o meu texto com precaução. O autor do post acredita no que escreve mas não pratica (nada de bocas foleiras, eu falava da filosofia) e, até, para mal dos seus pecados, leu “o John o Chauffeur Russo”. Segunda precaução, lembrem-se da imortal frase de Marcello Caetano , salvo erro, à tese de doutoramento de Soares Martínez: “tudo o que é bom não é dele, tudo o que é dele não é bom”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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13 Responses to Discussão académica

  1. Luis Rainha diz:

    Isso lança-nos na apaixonante discussão do infinitivo flexionado. Coisa bem mais séria que essas badalhoquices que envolvem lençóis e fluidos corporais.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    As coisas que tu sabes! Tive que interrogar um sábio para perceber que o infinitivo flexionado, da questão, não é meu, mas emprestado. Quando vais para a cama fazes declinações?

  3. Luis Rainha diz:

    Eu é mais inclinações.

  4. Escreveu um dia uma poetisa turca q n me recordo do nome, mas que o poeta Paulo José Miranda conheceu y fez a tradução de alguns poemas. ” Conhecemos melhor alguém quando fazemos amor”. Pois (!) é axiomático este verso y etá tudo dito.

  5. Nuno, confessa…
    Na carta que estás a escrever ao Pai Natal um dos teus desejos é que a Varanda acabe! 🙂

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Inês,
    Estava tramado. Não tinha nenhum assunto interessante para escrever se a tua correspondência sentimental com o conquistador Villalobos acabasse. Confesso que , de início, temi que te constipasses. Há sítios mais quentes para o amor que uma varanda, por melhor vista que tenha. Embora desconfie que em nenhuma circunstância o cavalheiro tiraria as meias e a gravata. Mas depois percebi que não corrias esse risco, a varanda é bonita porque é eterna. Vão estar lá até ao fim dos tempos. Sempre com o salto no abismo a um passo, sempre a recear a queda. Quem sabe se voavas?

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  8. dancarbossanova diz:

    “John o Chauffeur Russo” é absolutamente incontronável na colecção dos romances de capa azul, só superado pelos tão ou ainda mais românticos “o sol brilha nos teus lábios” e “amor que não esquece”! Muito bom!

  9. Nuno,
    Tenho que sair em defesa do meu companheiro de varandas. Alguém que escreve com aquela ternura mais do que cavalheiro tem que ser muito especial. Acho que tanto eu como o João já voamos desta forma.

    Para as meias não sei, mas para as gravatas ele tem bom gosto 😉

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  12. Tiago Martins diz:

    Nuno já deixei o mesmo comentário no corta-fitas. Sobre emoções acho que vale a pena darem uma vitsa de olhos por aqui e pelos outros http://gostoecontragosto.net/seccao/sintonia-das-palavras/page/3/ Sou um leitor atento destes poemas e sinto o que tá lá escrito. Diga lá se não concorda?

  13. Vivendo e aprendendo diz:

    EU não sei se o Nuno concorda mas eu vi o blog que o tiago sugeriu e gostei muito. só falta saber se é tão gira como a Filipa

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