Intrincadas malhas que o império tece

Há um monte de anos, escrevi algumas linhas apressadas sobre Pat Tillman: «era um jovem profissional do futebol americano. Há menos de dois anos, ofereceram-lhe um contrato de 3,6 milhões de dólares por duas épocas. Recusou. E alistou-se numa das unidades de elite mais duras dos EUA: os Army Rangers. Fê-lo, ao que parece, como resposta pessoal ao ataque do WTC. Depois de já ter combatido no Iraque, Tillman foi deslocado para o Afeganistão. Ali, acabou por morrer em combate. Com 27 anos. Para a maioria da imprensa americana, tinha nascido (passe a ironia involuntária) um herói. Alguém que reflectira na famosa pergunta de Kennedy e decidira descobrir o que poderia fazer pelo seu país. Eu nem sei bem o que pensar desta triste história. Se partir do princípio que Pat foi mesmo um jovem enganado por quem o convenceu a lutar em guerras estapafúrdias, lamento-o. Que uma vida tão promissora desapareça assim numa qualquer selva sem nome é sempre um desperdício atroz. Pior ainda se este sacrifício teve origem num idealismo deslocado, avidamente aproveitado pelos “fabricantes de heróis” americanos: os falcões que sempre se eximiram a dar o corpo ao manifesto e que por certo protegem bem os seus filhos de tais mortes gloriosas. A maior tristeza é que Pat Tillman está longe de ter sido o último. Malhas que o império tece.»
Agora, já percebi que esta prosa, à imagem de tudo o que escrevemos sobre vidas alheias, foi injusta, lacunar e precipitada. Tillman não foi nem herói nem idiota; antes algo de intermédio, como tantos de nós. E claro que não adianta pedir desculpa. Nem vale a pena invocar grandiloquentes palavras a propósito do mais bruto e irremediável dos desenlaces. Tão jovem! Que jovem era! (agora que idade tem?)

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