Pessoa, Zenão e a arca sem fim


Já acontecera uma vez, com a cruz onde terá morrido Cristo. O Santo Lenho, como lhe chamam os apaniguados, apareceu estilhaçado em dezenas de pias relíquias, operando milagres a torto e a direito. Coisa admirável e digna de reverência. Mesmo que, ao contrário do que afirmou Calvino, o volume total desse santo puzzle não desse para encher o porão de um barco.
Agora, é o espólio de Fernando Pessoa que se fragmenta e divide até ao infinito. Fenómenos inauditos andam por aí à solta. Foi a contracapa do livro antes comprado pela Casa homónima que agora foi posta à venda, são os registos das aquisições que se sumiram, os volumes e papéis que irrompem no nosso mundo vindos de parte incerta, os direitos de preferência não exercidos, o espólio que afinal é maior do que se imaginava. Continuará a obra do poeta a inchar eternamente, alimentada talvez pelo labor de um heterónimo com escritório para lá do universo conhecido? Ou a divisão prosseguirá sem fim, até que os nossos netos se vejam a disputar autênticas vírgulas pessoanas, com direito a certificado e tudo? Certo é que a novela entre os herdeiros legais e os espirituais conhece episódios cada vez mais caricatos. Palpita-me que o bom Fernando ia achar piada.

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