Da decomposição

O mundo não está dividido em más pessoas de direita e boas pessoas de esquerda. As pessoas más são transversais a todo o espectro político. A ideia que os banqueiros não podem ser gente honesta é imbecil. A injustiça do mundo reside num sistema desigual e não na falta de ética de determinados indivíduos. Normalmente, da desonestidade dos banqueiros não podemos retirar mais do que conclusões sobre os próprios. Diversas são determinadas épocas, que normalmente precedem as rupturas, em que certas camadas parecem perder completamente a noção da diferença entre o bem e o mal. Nessa altura, parece exalar de um regime um persistente fedor a decomposição. Um sistema político que recompensa, como fossem normais, a falsificações de balanços, o branqueamento de capitais e o enriquecimento ilícito,  promovendo a  violação das suas próprias regras, é um sistema podre. Nesse estado, as concepções ideológicas, dos poderosos, já não se expressam do ponto de vista das escolhas políticas, mas em efusiva cleptocracia.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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9 Responses to Da decomposição

  1. Nik diz:

    Começas bem e acabas mal. Rejeitas o maniqueísmo esquerda-direita, mas abraças o maniqueísmo dos sistemas, um mau, porque «desigual», e outro (implícito) bom, porque… igualitário? Qual é?

    A tua ideia é que há um banqueiro qualquer honesto. Assim de repente não estou a ver. Talvez o Constâncio? Mas como o sistema está «podre», a páginas tantas perde-se a noção da fronteira entre o bem e o mal. Para mim, só há uma dicotomia interessante nesta história banqueira: legalidade-ilegalidade. O resto é conversa. Quem viola a lei, deve pagar e, neste caso, com prisão efectiva e perda de bens. O sistema só está podre quando a justiça não funciona.

  2. ezequiel diz:

    “Um sistema político que recompensa, como fossem normais, a falsificações de balanços, o branqueamento de capitais e o enriquecimento ilícito, promovendo a violação das suas próprias regras, é um sistema podre. Nesse estado, as concepções ideológicas, dos poderosos, já não se expressam do ponto de vista das escolhas políticas, mas em efusiva cleptocracia.”

    Caro Nuno,

    O sistema político não deveria recompensar este tipo de comportamento. Tens toda a razão. Usaram a percepção da crise, a potencialidade do efeito contágio (não se falava noutra coisa na europa) para angariar o power para salvar o que nunca deveria ter sido salvo (excl depósitos dos clientes) A crise do banco não teve nada que ver com a crise do subprime e seus efeitos.

    Tens razão.

  3. antonio diz:

    Nada a acrescentar. Há algum sítio onde eu possa assinar em baixo do que escreveste ?

  4. P.Porto diz:

    Bom, que travessia. “Terra à Vista!”

  5. sempre me fez muita confusão esta coisa do sistema sem indivíduos…isso é lá para a botânica e outros quebra-cabeças hortículas.

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Nuno Castro, eu nunca defendi isso. Citando um autor, sobre o qual o Vasco Pulido Valente escreveu recentemente que ele apenas estudou a Inglaterra do século XIX, num dos seus textos mais conhecidos, “O 18 de Brumário de Louis Bonaparte” (provavelmente um monarca inglês…), Marx escreveu: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Os homens têm a liberdade de fazer a sua vida, mas essa liberdade está condicionada às condições em que vivem e transformam o mundo. Sobre a ideia que há um comportamento individual totalmente aleatório e errante, é capaz de ser verdade, mas também é verdade que no conjunto da humanidade esse comportamento é condicionado, sobre isso escreveu longamente um dos clássicos fundadores da sociologia Durkheim quando estudou o suicídio. Decisão aparentemente a mais individual de todas, mas sobre a qual era possível retirar regularidades sociais. Nos dias de hoje, se assim não fosse não era possível fazer, por exemplo, sondagens….que não constam que sejam feitas a plantas.

  7. argumentzia diz:

    Assim,os gajos que enfiaram gente nos campos de concentração e os mataram de seguida,coitados,fazem parte do xixtema que mandava torturar,violar,roubar, e ópois,matá-los.
    Quem não quer ser lobo,não lhe vista a pele,meu caro!É óbvio,que há excepções à regra e,alguns,minoritários desse conjunto revelam consciência social,agora,daí essa limpeza que faz do métier,faz-me lembrar a ‘piquena’ burguesia q acredita na bondade do lobo a guardar as ovelhinhas,coitadinhas….

  8. repara bem Nuno: eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes.

    o problema é que a tentação nem sempre é dominada. e a tua frase sistema desigual vs. ética individual revela justamente que a tentação foi mais forte.

    durkheim não é o exemplo mais feliz porque levou porrada até dizer chega devido à sua anulação da vontade individual ou seja o chamado indivíduo hiper-socializado.

    quanto a Marx, penso que se dá demasiada relevância à frase canónica do 18 de Brumário”. Havia boas razões para isso. Para mim, e vale o que vale, a frase qué más mencanta és de las teses sobre Feuerbach (a 8ª). e reza o seguinte:

    “A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na praxis humana e no compreender desta praxis.”

    aqui, está contido todo um programa para uma sociologia…

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