Falemos apenas de pintura (I)

Sobre a composição em pintura devemos ler Leon Battista Alberti, mas antes de tudo Plínio o Velho, que nos falava da importância da obra inacabada. A obra inacabada não corresponde à obra sem estrutura (sem composição, concretamente), mas se sentirmos esse inacabamento como uma força expressiva, podemos passar para um entendimento crítico da ideia de composição. Parece-me evidente. Aliás, não era por acaso que Petrarca falava do inacabamento como um tipo de astúcia: a obra inacabada dava oportunidade ao artista de a alterar segundo o gosto do público, espectador ou cliente (porque não?). O termo “compositio” vem, sabe-se, de Vitrúvio (que o aplicava à arquitectura) e de Cícero (aplicava-a ao corpo humano). Mas foi Alberti, no Livro II de “De Pictura”, quem estabeleceu o seu uso na pintura: distribuição dos elementos de forma a produzir sentido numa superfície plana. Esta definição assim abrangente, curiosamente, vai interessar à arte moderna, concretamente à arte posterior ao Impressionismo, que devemos entender como produção auto-reflexiva e predominantemente formal. Produção que se tem a si como o seu conteúdo, ou que vê nos seus meios (no seu “medium”) o seu significado. Greenberg, como se sabe, falava da pintura como expressão “pura” da planitude. Portanto, o século XX não destituiu a ideia de composição, antes a reforçou. E reinventou: por exemplo, a composição em grelha/rede está na base das abstracções mais radicais;

  (Robert Ryman)

Esta grelha/rede exprime dois factos: um, formal e espacial, outro simbólico. Veremos seguidamente como é a grelha/rede a figura central compositiva do século XX.

(para tal recorrendo a grande número de ilustrações)

Espacialmente, a grelha/rede é uma forma singular, a mais singular das formas, aliás, constituída por uma modulação sem crescendos e auto-suficiente; uma figuração do infinito, pois a composição-grelha pode prolongar-se para todos os lados exteriores da tela (imaginariamente, claro); trata-se de uma geometria primária fundada na repetição, des-hierarquização e dessubjectivação; a sua modulação é não discursiva, esta modulação despe-se de intencionalidade, a sua regularidade não tem conteúdo (que não a exaltação da referida planitude). Em termos de conteúdo e simbolismo, a rede/grelha nega a perspectiva e a temporalidade; devemos dizer que ela sinaliza um presente perpétuo.

Entretanto, a grelha/rede afirmando-se como coisa e conteúdo aproxima a pintura, despida da função mimética imitativa, da condição de objecto. O enunciado de Greenberg de que uma pintura é uma superfície branca correspondendo a uma tela apenas esticada (um objecto), é certeira. E mais certeira é quando o crítico acrescenta: trata-se aí já de uma pintura, mas não quer dizer que seja uma boa pintura. Portanto, antes de mais a pintura é um objecto sem significado.

Não só na modernidade do século XX, mas já desde a definição de Alberti, em 1435.

 (Agnes Martin)

A rede/grelha é uma forma de modulação repetida e auto-suficiente em princípio, mas ela pode desenvolver-se além da repetição, e o módulo-padrão pode ser modelado, digamos. Podemos passar de uma modulação para uma modelação, ou melhor, podemos modelar o módulo. Mondrian não estará muito longe desta possibilidade; é uma sua ilustração interessante :

Este é o Mondrian plenamente plasticista, abstraccionista. Mas noutras obras anteriores, Mondrian mostra-nos que a grelha/rede, permitindo labores diversos no seu seio, pode passar de uma estrutura auto-suficiente e sem conteúdo para uma forma de produção figurativa, ou seja, pode produzir conteúdos espaciais, estar na base de uma modelação ou presentificação de espaços. Vejamos no mesmo Mondrian (agora datado da primeira década do século XX)

Podemos depois estranhar o facto de a rede/grelha tal como a defini atrás – estrutura/base elementar, auto-suficiente, expoente de uma geometria primária, metodologicamente repetitiva, neutra e sem conteúdo – sustentar uma possibilidade gestual (mão=intimidade=subjectividade), como em grande parte da obra de Jasper Johns, já na segunda metade do século XX :

Nestes termos desenvoltos e contraditórios, a rede/grelha é uma das invenções compositivas centrais do século XX, ao ponto de ser à grelha/rede que o minimalismo recorreu como a sua figura compositiva quase exclusiva, só que desta feita, como eu costumo sublinhar, para a produzir industrialmente. Porque, como sabemos de post anterior, o minimalismo nos anos 60 e 70 não concebia de facto qualquer conteudificação para a obra que passasse por marcação subjectiva ou psicológica (ou narrativa ou funcional). O minimalismo exigia uma predominância do objecto sobre tudo: sobre o conteúdo, sobre o discurso da própria cor, sobre o gesto subjectivado, sobre o processo (invisível, porque tal era permitido pela máquina) – assim sendo, o minimalismo reivindicava uma forma fenomenológica, definia-se a si mesmo como um “puro aparecer” específico. E o “puro aparecer” é a antítese da construção/realização. Claro que sem Duchamp e o readymade não teria havido minimalismo, nem conceptualismo (primado da linguagem). Por isso é que Donald Judd

Judd, dizia eu, tem de ser visto como um filho directo de Marcel Duchamp

 

(CONTINUA)

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