A pedido de Luís Rainha, um nome: professor Varela Aldemira

Aquando de uma espécie de “elogio” de Marcello Caetano como crítico de arte (descoberta minha !), ou de uma contraposição entre a sua capacidade de escrever sobre arte abstracta “versus” alguns discursos de José Sócrates (e esqueci-me de uma outra frase recorrente: “este é um momento histórico”, isto repetido sem conta), citei um escriba português que não identifiquei e uma sua reflexão sobre Paul Klee.

Repito a frase sobre Klee, identifico o autor da reflexão (que não quis identificar no post anterior) e mostro-lhe outras sábias facetas :

A frase sobre Klee era esta:

“No desequilíbrio nervoso de Paul Klee são frequentes as dissociações do conceito, falácia descontrolada, atrabílis na escrita e nos desenhos traçados, dir-se-ia por falanges perras na articulação de gancho, a esclerodactília dos ossos e músculos das mãos. Daqui resultam as herméticas puerilidades na prosódia de labirinto, onde os críticos descobrem verdades de alto nível metafísico”.

É fácil discordar da opinião, mas que o texto é soberbo, nunguém duvide. É do professor pintor Varela Aldemira, professor na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (hoje FBAUL) entre os anos 40 e 60. Independentemente das suas posições estéticas, tem de se reconhecer o professor Varela Aldemira como um dos melhores teóricos da arte em Portugal no pós-II Guerra, talvez acompanhado por Areal e poucos mais. Se não acreditam, que me digam quem mais poderia escrever isto sobre o “Cristo”, o mais do que magnífico “Cristo”, de Velázquez ?

“Observemos mais atentamente este ‘Cristo’, símbolo da eternidade na morte, e esta cruz pintada de frente para ser vista de frente. Ao alto, o madeiro horizontal engana os mais argutos, supondo-o incrustado no meio, mesmo ao meio do troco erguido. Gordo engano: o lenho direito é mais comprido que o esquerdo. Dois braços desiguais, porquê? Ao compasso impecável de Velázquez sucedeu-lhe o imprevisto, uma ilusão de óptica a resolver na sua fidelidade ao dinamismo da composição, e desta maneira: inclinada a cabeça de Jesus sobre o ombro direito, a auréola acompanha essa inclinação e encobre parte do braço da cruz, braço que parecerá ‘curto’ se o artista não lhe aumentar o comprimento. E aumenta, altera a medida para mais seis centímetros, e assim estará bem com as exigências visuais do sentimento estético. Quem analisa a pintura, menos prevenido, jura que tudo está certo. E tem razão. As certezas artísticas vivem do apoio substancial de verdades incertas, ou, dizendo de outro modo: as verdades artísticas, por não serem verdades científicas, bastam-se a si mesmas, se bem que a certeza geométrica, ou científica, será incompleta, provisória, penúltima no dia em que chegar a última, a mais exacta.” (Estudos Complementares de Pintura, Lisboa, 1970)

Magnífico texto, rigorosa análise formal/compositiva, rigorosa conclusão sobre a vida, as nossas vidas.

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