Portugal de Camilo

Num dos meus primeiros empregos, tive um patrão que tinha “amantes”, à antiga portuguesa, e era capaz de apalpar gajas nos transportes públicos, se por acaso os apanhasse (e se as apanhasse a jeito) e achar que elas gostavam. A chegada da Dr.ª V. ao nosso escritório deixou-o por isso em estado de grande excitação: a Dr.ª V., embora a mim não me excitasse puto, era objectivamente excitante, e a fragilidade do seu vínculo laboral parecia oferecer largas perspectivas de sucesso a um golpista sem escrúpulos da sua espécie. Ante aquele combate desigual, eu torcia pela Dr.ª V., que via sofrer as investidas do patronato e – cheguei a julgá-lo – acabaria por lhes sucumbir, mas afinal não: a Dr.ª V. saía com o homem, dava-lhe troco, mas no fim cortava-se, a sujeita era uma reles allumeuse, queixava-se ele, “sabia-a toda”. À entidade patronal, eu manifestei a minha solidariedade masculina, enquanto para os meus botões (na realidade, em frente ao espelho da casa de banho do escritório) j’ai tiré un grand coup de chapeau à Dr.ª V., quando esta entrou para o quadro sem ter dado nada que não fosse devido em troca, mas o tipo tinha mau perder: para ele, a culpa era de um amante que ela tinha, um tipo casado também, mas que tinha chegado primeiro e marcado o território, por assim dizer. Aí eu não pude impedir-me de rir e disse-lhe: “-Com franqueza, acredita mesmo nisso? A Dr.ª V. é uma rapariga moderna, andou na faculdade, trabalha, faz pela vida, há-de ter namorados, com certeza, mas “amantes”, homens casados? Isso era no Portugal de Camilo!”

O patrão não era o único a falar mal da Dr.ª V.: o mulherio também não gostava dela, “uma sonsa”, diziam elas, inveja, achava eu. A minha amiga J., que era o elemento mais esclarecido daquele escritório, por uma vez concordava com as outras: eu saudava na Dr.ª V. uma espécie de Pasionaria pós-moderna, triunfante da labreguice patronal, mas, por trás desse improvável símbolo feminista, escondia-se, sentia ela, o equivalente moral do nosso patrão. Pedi à J. que traduzisse essa intuição obscura em palavras compreensíveis pela metade da humanidade a que eu pertencia, mas de momento não podia: no olho de um furacão sentimental, tinha-se asilado em casa de amigos e precisava de encontrar depressa um sítio para morar. Finalmente encontrou um: mas o senhorio, um caramelo do Restelo, vasto proprietário imobiliário e habilidoso dos desportos radicais (julgava ele), à hora de assinar o contrato, teve um sporting accident que o deixou preso à cama por várias semanas. “-Se quiser assinar tem de vir a minha casa”, disse ele, e ela assim fez; depois, com um sorriso complacente, contou-me a cena: “Parecia um presépio, ele ao meio, de perna engessada, e de cada lado, em adoração, uma mulher, à direita a legítima, à esquerda “a outra”, uma colega nossa, adivinhas qual?…” -perguntou ela. “-Pronto, pronto, respondi eu, não digas mais, já percebi que sou muito menino.”

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SEXTA | António Figueira
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