Gostava de ter escrito isto (como se costuma dizer)

A foto é de Edward Said, o último dos humanistas de esquerda, na fronteira do sul do Líbano. Do outro lado é Israel. Said foi o último dos humanistas, estou certo. Depois dele, acabou-se.

O texto é de Slavoj Zizek, ainda válido apesar de datado de 2002 (da edição portuguesa de “Welkome to the Desert of the Real”) :

“Nas suas «Notas para uma Definição da Cultura», o grande conservador T. S. Eliot fez observar que há momentos em que a única escolha que se apresenta é a do sectarismo ou a da descrença, quando o único meio para manter viva uma religião consiste em efectuar uma separação sectária relativamente ao seu corpo principal. Hoje, é a nossa única oportunidade: a única maneira de conservar uma herança europeia renovada passa pela via da «separação sectária» em relação a essa mesma herança europeia clássica, uma separação do corpo moribundo da velha Europa. Uma tal ruptura deveria permitir repor em questão as próprias premissas que tendemos a aceitar como um destino inevitável, como dados inegociáveis da nossa difícil situação: o fenómeno habitualmente designado como «nova ordem mundial» e a necessidade de nos acomodarmos a ele pela «modernização». Para dizer as coisas francamente, se a nova ordem mundial emergente é o sistema inegociável imposto a todos nós, então a Europa está perdida. Para a Europa, a única solução é aceitar o risco de dissipar o enfeitiçamento que cobre este destino. Nada poderá ser aceite como inviolável nessa nova fundação, nem a necessidade de «modernização» económica nem os mais sagrados fetiches liberais e democráticos”

Ora, é isto, parece-me, que se aplica à questão da inevitabilidade das reformas económicas a que nos temos de sujeitar.

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