Confissões de um comentador

A profissão de comentador é algo de fascinante. Eu próprio sinto o mesmo quando, episodicamente, a exerço: fala-se com a mesma certeza da inseminação artificial das galinhas, da Manuela Ferreira Leite, das últimas descobertas da física quântica e do Magalhães do Sócrates. Não interessa perceber do assunto, basta ter um ar convencido e desembaraçado. O público não quer especialistas nem pessoas que percebam do que falam. Para falar verdade, o espectador ambiciona gente tão conhecedora quanto ele. Os tipos que passam a noite no sofá a olhar para o ecrã querem ver personagens. Algo que mexa e esbraceje. Preferem a Soraia Chaves mas contentam-se com o Nuno Rogeiro (sem desprimor para o próprio que é um tipo esperto e, sobretudo, sem menosprezar a dita cuja). As criaturas da pantalha criam-se de geração espontânea. As pessoas não aparecem na televisão porque percebem de alguma coisa. São importantes porque aparecem na televisão. A luz do estúdio pede certezas e desembaraço. A ignorância é atrevida e não aborrece ninguém.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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