Ricardo Pinto: “Requiem pela ministra da Educação” (2)

O «Novas Oportunidades», lançado pelo ministro David Justino, foi uma excelente medida, igual ao que já existe por toda a Europa. Mas qualquer instituição pode fazer a formação para validação de competências. Há empresas privadas que recebem dinheiro para fazê-lo, mas os seus funcionários não chegam a comparecer uma única vez e obtêm o diploma em dois ou três meses. Há instituições que permitem fazer do 5.º ao 12.º ano em seis meses. As estatísticas é que contam. Faz lembrar o Fundo Social Europeu.
Quanto aos professores, o novo Estatuto da Carreira Docente está na base da maior parte das críticas à ministra. Em nenhum dos países desenvolvidos há uma divisão na carreira entre professores e professores titulares. Porque todos são professores e aqui, não há nem deve haver hierarquias. Todos os professores são iguais. O problema piora quando são os titulares que vão avaliar os professores.
Estes titulares, relembre-se, chegaram a este cargo com base apenas nos cargos ocupados nos últimos sete anos. Não são os melhores, são os que tiveram mais cargos. Para efeitos administrativos, em 2007 a ministra Maria de Lurdes de Rodrigues classificou-os a todos com a menção qualitativa de BOM. Onde é que já se viu isto? Já chegámos à Madeira?

É por isso que o Estatuto da Carreira Docente é a fonte de todos os males. Porque tem uma série de implicações negativas, apesar de revelar alguns aspectos positivos, relacionados sobretudo com as faltas dos professores.
Por fim, no que toca à avaliação do desempenho, há alguns anos atrás havia uma prova pública de acesso ao 8.º escalão. Os professores que reprovassem nessa prova nunca ascendiam ao topo da carreira e ficavam para sempre no 7.º escalão. Essa prova pública de acesso, essa sim que distinguia os melhores professores, foi abolida pelo Governo do PS de António Guterres, do qual fazia parte José Sócrates.
A partir daí, 1998, passou a existir a progressão automática na carreira. E aplauda-se o fim desse sistema. É fundamental avaliar e não se pode admitir que um professor que não faz nada progrida da mesma forma que outro que se empenha a sério.
Mas tem de ser uma avaliação justa, que não contenha factores pelos quais o professor não é responsável e que não controla minimamente, como é o caso do abandono escolar ou do insucesso escolar. Não admito que, em Setembro, tenha de dizer que 90% dos meus alunos vão ter positiva e 10% negativa. E se o número de negativas for maior? Devo ser prejudicado na minha avaliação porque não cumpri os objectivos? Ou passo os alunos para ajustar a sua classificação aos meus objectivos? E se os alunos abandonarem a escola para ir trabalhar, ou emigrarem com os pais, como acontece muito no Interior, por que razão devo ser prejudicado na minha avaliação?
Para além disso, era perfeitamente possível avaliar um professor sem obrigá-lo a tamanha carga burocrática. Veja-se este exemplo referido por Manuel António Pina, esse grande sindicalista: «Uma professora com 9 turmas e 193 alunos vai ter que introduzir manualmente no computador 17 377 registos e fazer 1456 fotocópias, além de participar em algo como 91 reuniões. Contas feitas, a 1 minuto por registo, e visto que a professora é um Usain Bolt informático, e não dorme nem come, nem se coça, nem se assoa, inteiramente entregue à avaliação, são 290 horas, isto é, 12 dias (noites incluídas).
Já 1456 fotocópias a 1 minuto cada (tirar o papel do monte, pô-lo na bandeja da fotocopiadora topo de gama da escola, esperar que saia fotocopiado e colocá-lo noutro monte), levam-lhe mais um 1 dia (noite incluída). E 91 reuniões, também de 1 minuto, mais 91 escassos minutos. Ao todo, a professora fará a coisa em pouco mais de 13 dias (noites incluídas). Qual “pesadelo burocrático” qual quê! No fim ainda lhe sobrarão, se alguém a conseguir trazer do cemitério ou do manicómio, 152 dias para dar aulas, aprovar os 193 alunos e contribuir para as estatísticas da ministra.»
Ou veja-se as grelhas de avaliação publicadas pelo Governo em «Diário da República». Duas simples folhinhas, como se pode ver neste PDF.

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13 Responses to Ricardo Pinto: “Requiem pela ministra da Educação” (2)

  1. Luis Moreira diz:

    Esta dos profesores titulares foi um enorme erro.Divide os professores quando a avaliação exige o seu envolvimento .É um instrumento desnecessário,metido a martelo para burocratizar o processo.A verdade é que as escolas têm a sua própria hierarquia.O director,o Conselho executivo,o Conselho Pedagógico,os Coordenadores de cadeiras.É com estes orgãos que se faz a avaliação.Como se faz há muito, em todas as organizações que têm como objectivo obter resultados.A avaliação só precisa de assentar em i) ser objectiva e aceite por todos ii) ser fàcilmente mensurável iii) corresponder com prémios e incentivos iiii).A própria classe corresponderá com a separação do trigo do joio!

  2. Luis Moreira diz:

    Luis, essas questões esbatem-se numa avaliação participada,dialogante.Todos sabem lá na escola que uma parte dos meus alunos emigraram ou desistiram.Todos só temos que saber se isso é ou não um resultado devido ou meu comportamento ou se nada tenho a ver com isso.Se eu estiver enquadrado numa fileira -filosofia por exemplo- onde estão todos os professores da cadeira que tem um responsável cordenador,quem melhor avalia o meu desempenho?Ao longo do ano tenho inúmeras reuniões com os colegas,colocamos questões,soluções,pedimos ajuda.Não sabemos todos quem trabalha,quem se interessa,quem obtem resultados?Quem tem medo de responsabilizar,de dar autonomia aos professores? É por isto que os professores deveriam lutar! Tomar nas suas mãos o que só eles podem fazer!

  3. Aires da Costa diz:

    Luís Raínha

    Tive a curiosidade de ir ver o PDF. Assustei-me.
    Até agora não tinha dúvidas que no essencial a ministra tinha razão.
    Até agora não tinha dúvidas, que podendo haver alguns problemas com o sistema de avaliação, os motivos de fundo para a insatisfação dos professores não passava por aí.
    Imprimi o PDF, não cosegiu ler nada devido ao corpo da letra. Gravei o documento e tive a pachorra de fazer zoom 300%.
    A partir de agora fiquei também consciente que o argumento da papelada que é preciso preencher é de facto uma grande treta! No diploma aparecem 15 modelos o que parce uma monstruosidade de burocracia. Só que ninguém tem de preencher os 15 modelos a não ser que uma só pessoa seja simultâneamente, docente do pré escolar, docente do básico, docente do secundário, docente do ensino especial, coordenador no ensino pré-escolar, do básico, do secundário, etc..
    A título de exemplo da grande complexidade destas fichas, vejamos o caso completamente anormal de um professor do básico que tem de preencher UM modelo com 14 questões que são tão bizarras como estas:

    “Como avalia o estado de actualização dos seus conhecimentos científicos e pedagógicos e a sua capacidade de utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação”

    … Actualização de conhecimentos científicos?
    … Técnicas de informação e comunicação?

    “Refira as acções de formação contínua realizadas… e avalie o contributo de cada uma delas para o seu desempenho profissional”
    … Contributo para o desempenho profissional?

    “Identifique sumariamente as suas necessidades de formação e desenvolvimento profissional”
    … Estão-me a chamar incompetente?

    “Como avalia a relação com a comunidade e o cumprimento dos seus objectivos individuais definidos neste âmbito”
    … Relação com a comunidade? Eu fui colocado em Moimenta da Beira, quero é concursos anuais!
    … Objectivos MEUS na relação com a comunidade? Os meus alunos são da Musgueira, objectivos só se for que não me lixem o carro!

    —-
    De facto atirar com um PDF que não se consegue ler (senão com muito esforço) dando a entender que cada professor tem de preencher 15 modelos quando cada um tem de prencher um ou dois é o que chamo falta de honestidade intelectual

  4. Luis Rainha diz:

    Discorde à vontade; mas não com o “Luís Rainha”, que não é o autor do texto. Este é obra do Ricardo Pinto. Mas uma coisa sei: amigos meus professores contam-me que dias há em que gastam 50% do seu tempo de trabalho no processo de avaliação.

  5. Francisco diz:

    Belo argumento Luis Rainha !
    Se os seus amigos lhe contassem que gastavam 150% do tempo de trabalho V. também acrediva, não ?
    Homem de Fé !

  6. Luis Rainha diz:

    Eu faço fé nas duas pessoas em questão. Naturalmente, não lhe peço que prolongue essa minha fé…

  7. Francisco diz:

    Extraordinário argumento Luis Rainha !
    Se o seu argumento é a Fé, então não é discutível…ou é ?
    V. é Crente… mas científico: realmente professores é plural (disse duas pessoas !). BELO !

  8. Luis Rainha diz:

    Ó homem, claro que é discutível e vale o que vale: para mim bastante, para si nada. Qual é a crise?

  9. Francisco diz:

    Caro Luis Rainha,
    Com que então a Fé é discutivel. Arre !!
    Afinal V. revela-se (mesmo) um homem de pouca Fé…
    E “Qual é a crise ?” pergunta V.
    Eu dizia-lhe, mas como não sou seu amigo V. não ia acreditar… lol lol.

  10. Francisco diz:

    Aprendi que na Net ( e em outros sitios…) dá-se e leva-se mas depois há aqueles que atiram a pedra e é o ai Jesus quando levam o troco.
    Mostra a falsidade e má formação que vai por este País.

  11. Luis Rainha diz:

    Por mim, tudo é discutível. A sua fé, a minha, o que quiser. Mas não em conversas tontas como esta.

  12. Aires da Costa diz:

    Luís Rainha

    Peço desculpa, mas julguei que subscrevia o texto do Ricardo Pinto.

    Mas já agora a propósito de…

    “amigos meus professores contam-me que dias há em que gastam 50% do seu tempo de trabalho”

    Qual é o tempo de trabalho?

    No tempo gasto com o processo de avaliação também contabilizam, o tempo dispendido na contestação ao processo?

    No mês passado tive uma reunião com a directora de turma de um dos meus filhos, 20% do tempo foi a falar sobre questões relacionadas com a actividade deste, 80% explicando-me que o novo sistema de faltas era um grande problema.

  13. Luis Rainha diz:

    Não, nos casos em apreço, esse tempo (grosseiramente avaliado, claro) estava aa ser gasto mesmo com a avaliação em si. Mesmo aceitando que o processo se agilize com a prática… talvez haja algum exagero.

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