Notícias positivas

Mais de um milhão e duzentos mil exemplares de um falso número do New York Times foram distribuídos nas ruas dos states. Anunciavam o fim da guerra do Iraque e a prisão de George W. Bush, acusado de alta traição. A imitação, feita por organizações pacifistas, era muito parecida com o original. A mais visível das diferenças estava na, ligeira, alteração do lema do conhecido diário. Em vez de “todas as notícias que merecem ser impressas”, figurava a frase “todas as notícias que desejamos imprimir”.
É um papel cheio de boas notícias. A coisa só se safa porque é uma excelente provocação e um produto de propaganda, porque se fosse jornalismo estava tudo lixado. As boas intenções dão cabo de qualquer escrito.
A bondade na comunicação social redunda na mais pavorosa estupidez. Não é preciso ir aos países dos telejornais em que se anunciava os recordes dos tractores dos gloriosos sovkhoses para observar o desastre. Em Portugal, já se tentou salvar os pecadores pela notícia. Há alguns anos, quando a TVI pertencia à Igreja, ensaiaram fazer um programa tipo telejornal-alternativo editado, salvo erro, pelo actual ministro Pedro Silva Pereira que pretendia ser um espaço de acontecimentos felizes e positivos. Certamente com a melhor das intenções, desejava-se retirar os portugueses da influência malévola do jornalismo que dá as tragédias, as lutas, as guerras, as denúncias e todas as merdas da vida. Provavelmente, com o melhor dos propósitos, queria-se habituar os telespectadores a apreciarem as pequenas coisas da vida: olharem, com enlevo, para os anjinhos, serem fofos e, provavelmente, rebolarem-se quando escutam a voz certa. Já dizia o outro: “felizes os pobres de espírito porque deles será o reino dos céus”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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