O jornalismo e a praça pública

Pedro Santos Guerreiro, director do Jornal de Negócios, teve a pachorra de passar por aqui para dar a sua versão dos factos: «O que aconteceu foi: a Zon apresentou resultados trimestrais na véspera; os dois diários de economia tentaram, e conseguiram, falar com o seu presidente; ambos entenderam que, sendo esta uma empresa com muitos accionistas e cujas acções acumulam grandes perdas este ano, os depoimentos mereciam relevância de primeira página (nos dois jornais, há apenas curtos depoimentos que contextualizam os resultados, sendo que o DE optou por chamar-lhe entrevista). Hoje a Galp apresenta resultados trimestrais. Quer apostar que os dois diários de economia vão tentar ter conversas exclusivas com o presidente? E que, se as tiverem e elas forem substanciais, amanhã ambos as terão na primeira página. Não é preciso conspirar, o acerto ou erro da decisão editorial é tão simples quanto isso.»
Quanto a isto, nada a desmentir, por certo; só que mais de duas décadas de convivência com os media, do outro lado da “barricada”, deixaram-me algo céptico e sempre pronto a acreditar no pior. E até desconfio que do “conspirar” ao “não andar longe da verdade” por vezes o passeio é curto. De qualquer fora, saúdo e agradeço a vontade de esclarecer, sobretudo tendo em vista que isso acarretou uma excursão ao wild side que é a blogosfera.

E é esse o busílis que também motivou a visita de Pedro Guerreiro: «by the way, sempre fui aconselhado a não responder a blogues pois isso é dar dignidade institucional a uma praça pública, mostrar insegurança por se ser defensivo (dar o flanco), etc. Têm opinião sobre isso?»
Opinião tenho. Em primeiro lugar, julgo que isso da “praça pública” pode ser uma outra forma de nomear a esfera pública; um plano de comunicação biunívoca entre cidadãos e entre estes e os decisores. Ela não será por certo o palco onde as grandes decisões das sociedades democráticas são formadas mas sim uma plataforma indispensável onde as populações (e os votantes) podem tomar decisões informadas e racionais. Ou seja, a tal “praça” parece-me um local recomendável e a frequentar com assiduidade.
Habermas, já há mais de 30 anos, constatou que «hoje, jornais e revistas, rádio e televisão são os media da esfera pública.» Mas o presente agraciou-nos, para o bem e para o mal, com as possibilidades da Web 2.0; uma mudança de postura dos utilizadores da Internet, que de simples consumidores de informação, passarão a acumular as funções de criadores e distribuidores de conteúdos. A Web começou assim a ser encarada como uma plataforma dotada de uma arquitectura de participação que gera efeitos de rede. Castells celebrou a entrada em cena deste paradigma como sendo a «ascensão de uma nova forma de comunicação socializada: a auto-comunicação em massa». Aproveitando novos recursos como a blogosfera ou as redes P2P, «movimentos e indivíduos rebeldes» encontrariam assim capacidades para confrontar instituições e propor projectos alternativos. Esta expansão da Esfera Pública certamente que engloba este nosso cantinho; não em paridade (seja lá isso o que for) com jornais e TVs, mas por certo com aspirações a alguma interacção. Aliás, já abundam os exemplos de alguma atenção dada à blogosfera pelo jornalismo referencial.
Assim sendo, e mesmo descontando algum optimismo excessivo, não imagino que mal possa vir ao mundo ou aos media tradicionais por ousarem encontros algures neste mundo mais ou menos virtual.
Como todas as paragens, é preciso escolher onde se aporta. Sempre sem medo de dar a cara e desmentir quem precisa de ser corrigido.
Claro que ninguém com alguma visibilidade no mundo “real” tem tempo para andar a policiar tudo o que por aqui se escreve que o possa afectar; mas estas incursões, julgo eu, não fazem cair os parentes na lama a ninguém. E, pelo menos neste caso, até me levaram a olhar com outros olhos para uma coincidência que parecia suspeita. Acho que ficámos todos a ganhar com a “sortida” do Pedro Santos Guerreiro.

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