Dias cheios de graça

Na Buchholz, à hora de almoço, encontrei uma pérola porreira, o catálogo de uma exposição de livros apreendidos pela PIDE, que tinha junto à reprodução da capa de uma edição precoce do “Beau Masque” do Roger Vailland (cuja existência eu desconhecia) o respectivo auto de apreensão, que rezava mais ou menos assim (cito de memória): “Há de tudo neste livro: junta à política operária comunista a corrupção dos costumes e a sexualidade livre”. Grande Vailland, nunca desilude; e depois às cinco (coincidência, sinal dos deuses, a porra que quiserem) encontrei este artigo na net sobre ele – ou mais uma vez, sobre a sua recepção em Portugal, agora não pela PIDE energúmena (como é que dizia o inspector? “Lenine, Estaline, Racine, é tudo a mesma merda”), mas por Maria Irene Soeiro, da Universidade de Aveiro (bem-haja, sotôra, aprende-se muito consigo). Ele há dias assim, cheios de graça: a professora de português do meu filho mandou-o ler “O mundo em que eu vivi”, da Ilse Losa, e eu aproveitei a boleia e quando cheguei ao fim e vi que ela (isto é, a personagem Rose que é a autora) tinha fugido da Alemanha em 33 quando a Gestapo a tinha posto em liberdade e mandado voltar daí a cinco dias à Alexanderplatz (nesse interim, portanto) pensei logo, é mesmo assim, Deus precisou de sete dias para fazer o mundo mas afinal cinco chegam para mudá-lo (ou seriam dez para abalá-lo?). Cinco dias somos nós, dias estranhos, o mais estranho dos quais foi aquela segunda em que o Z. disse, assim como para explicar que o único rival digno de nota é o Benfica e que perder aos penalties com os capangas do Jesualdo não dói nada, que o Porto era tão estrangeiro que não se admirava de, um dia que lá fosse, ver os carros a circular pela esquerda ou a malta a comer com pauzinhos. Não é bem assim (dali houve nome Portugal, ouvi dizer), mas a ideia é engraçada.

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SEXTA | António Figueira
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