Continuando o importante tema proposto por Luís Rainha (sobre arte e massas)

AD REINHARDT

A Young British Art, irmãos Chapman, Emin, Hirst, Jenny Saville, Marc Quinn, é um fenómeno de popularidade sem grande significado hoje (como ontem, no que respeita a uma verdadeira popularidade). O seu historiador mais rigoroso, Julian Stallabrass, escreveu sobre isso um livro definitivo (“High Art Lite”).
Mesmo quando se discute Hirst fala-se de um artista milionário que pôs obras numa leiloeira antes de as pôr na Galeria (onde não as pôs nem antes nem depois), mas não se fala no carácter necrófilo da sua produção, interessantíssima se contrastada com a atitude “positiva”, “luminosa” do mercado e para o mercado. Em última análise ele diverte-se (mas diverte-se muito menos que Ad Reinhardt – ver imagem) com aquilo que o mercado consome, diverte-se com a crença religiosa na modernidade (e fá-lo depois da modernidade) com a indústria do consumo cultural actual: monta um restaurante com David Bowie e anuncia pela enésima vez, depois de Koons, Barney e os “regressos à pintura” de 80 + a transvanguarda, a morte da vanguarda. Aí o gesto de Hirst é epigonal e sem interesse: a morte das vanguardas foi uma moda reaganómica dos anos 80. A impopularidade da arte moderna começa com uma análise importante de Ortega y Gasset, mas hoje o problema é diferente, muito diferente.

E já que se fala em YBA, pense-se no seu mais importante sobrevivente, o melhor artista da sua geração, Douglas Gordon, young british art à séria, um artista de fundo mergulho na mente, um apropriador de imagens e filmes que aí, como em nós, detecta um beco sem saída mental, perturbando-nos nas nossas identidades sem remédio. Sabemos, desde Lacan, que entre nós e nós mesmos há um desfasamento irredutível. E Gordon sabe-o melhor que nós, ainda por cima.
Na música, depois de Nono, Berio e os outros de Darmstadt, resta Boulez, cada vez mais um maestro exemplar. Em Mahler e Janacek não conheço melhor. Entretanto, sigamos a pista do compositor Thomas Adés, novíssima estrela a confirmar.

E, se pudermos, deliciemo-nos com os comics do mais radical dos artistas da geração “sublime is now”, Pollock e companhia, de seu nome Ad Reinhardt. O que ele se divertiu com a arte moderna, ele que só pintou monocromos negros. E o que ele se divertiu com os seus monocromos lidos pelos seus próprios comics.

Reinhardt, épater le bourgeois ? Pintor religioso ? Pensador do vazio e ao mesmo tempo fantasista ? Mitómano ? Dupla personalidade ? Autor de delirantes imagens, bonecada e iconoclastias (tudo ao mesmo tempo) ? Em que acreditava este homem ? Sabe-se lá.

Ad Reinhardt por loreto martin.Only a bad artist por mitue.

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12 Responses to Continuando o importante tema proposto por Luís Rainha (sobre arte e massas)

  1. Passa pelo Mapas. DPM. Vale.

  2. Y os seguidores do Ad Reinhardt que surgiram como cogumelos em qualquer Restaurante-Galeria perto do lugareijo de cada um. O povo é amigo da Arte…

  3. Carlos Vidal diz:

    Sim, senhora De Puta Madre, está correcta a observação. Se considerarmos seguidores de Reinhardt os minimalistas, Judd, Carl Andre e Dan Flavin, vemos que o minimalismo contribuiu para essa pululação de “vanguarda” pelos restaurantes respeitáveis, desde o MoMA à Bica do Sapato (ou ao Casa Nostra, embora estes de Lisboa apenas sirvam de caricatura para a coisa). O diagnóstico está mais ou menos feito: se é ao minimalismo nos referirmos (é DPM ?), ele pretendeu ultrapassar a pintura e a escultura numa coisa chamada “objecto específico” (que era tridimensional). Este era uma forma de natureza privada (íntima do artista, subjectiva) produzida industrialmente. É nesta contradição que o objecto minimalista se transforma em objecto de design e vai pulular em “bons” restaurantes, merchandising de exposições, etc.

  4. É isso, CV. Nas “Galerias” os olhos descansam y o cérebro dança…
    Vivo na Aldeia (!) y cá tb há coisas como no MoMa … só não temos um Obama 😉

  5. Carlos Vidal diz:

    Às vezes dança bem, outras mal. Mas as galerias fazem falta.
    Por outro lado, as notícias de Damien Hirst até podem chegar primeiro à aldeia. É verdade.

  6. É mais os métodos de Damien Hirst que se aperfeiçoam nas aldeias, de geração em geração … é como se vivesse um Damien Hirst em cada aldeão 😉 y qando as aldeias se colam ao mar, digamos, a arte é mais completa …

  7. Carlos Vidal diz:

    Quando as aldeias se colam ao mar, os Damien Hirst desaguam numa nova foz, o museu Saatchi e outras coisas do género. Contudo, meritórias e, muitas vezes, imprescindíveis.

  8. Um desabafo: sou alérgica ao RogériA ( como gosto de lhe chamar!!)… há um Damien Hirst em mim sempre que olho para aquilo que RogériA escreve …
    ………….
    A minha fase agora é entre o Ged Quinn y a Suzzan Blac … a Suzzaninha ainda anda a desaguar no myspace … uma galeria muito interessante para quem se entrega à causa …

  9. Agora lembrei-me … associações de ideias … dos aldeões, aldeias y Damien Hirst … y arte, vida y morte. … Passou um documentário no doclisboa “The Lie of the Land” ( Molly Dineen) que era interessante. Ou seja, é como se o trabalho do Damien Hirst fosse uma espécie de último reduto – símbolo – de um modo de vida em extinção ( esse contacto humano do homem com o animal y o seu poder de vida y morte y sobrevivência y compaixão y etc)…

  10. Carlos Vidal diz:

    Eu também não aprecio particularmente o RogeriA, bem posto o nome, parece-me, Madre. É completamente burro em metaforicidade, como o próprio me confessou literalmente – apenas sabe usar o dicionário. Chamou-me de gongórico, veja-se lá. Eu que tanto aprecio Don Luis. Mas com “gongórico” não criou uma metáfora, disse-me que a usava como no dicionário. Como metáfora, “gongórico” é para mim um elogio.

  11. 😉 … sou muito espirituosa, mas RogériA é descaradamente sem escrúpulos ( virtuais)… corta comentários y manipula o que pode, cria climas … engalana-se de vítima quando lhe dá jeito, enfim … como o será na realidade? Espanta-me que exista com tantos defeitos concentrados. Acho que lhe dou uma chapada qd – se um dia o conhecer … y ai de RogériA que se lembre de vir com a história da Lei. Leva Outra.
    …….
    Deixo o link com alguns trabalhos da Suzzaninha
    http://f-se.blogspot.com/2008/08/f-se-o-som-uma-experincia-corpo-alma.html Gosto daquele exagero todo. Do excesso.

  12. Carlos Vidal diz:

    Trocámos palavras azedas uma vez, mas não me cortou nenhum comentário. Não simpatizamos, é isso.

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