África e Sarkozy

Durante décadas, a França seguiu uma política muito própria em relação a África que se baseava, entre outras coisas, por ter relações privilegiadas com quem estivesse no poder, independentemente da cor ideológica ou de que tipo de poder exercia no momento. Era um pragmatismo que, mesmo tendo altos e baixos, fez de Paris uma verdadeira plataforma dos grandes acontecimentos em África.
Essa política passou a ser copiada por Portugal em relação às suas ex-colónias e foi introduzida por Cavaco Silva, quando tentou acabar com a promiscuidade que existia entre os governos portugueses e os movimentos que combatiam os regimes, sobretudo, de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique.
Mas agora, Paris ameaça rodar a agulha. Nicolas Sarkozy, dias depois de ser empossado, garantia que a França iria dar uma maior atenção ao respeito pelos direitos humanos em África e não olharia apenas pelos interesses franceses.
A ruptura prometida já deu em livro, intitulado Sarko en Afrique, de dois jornalistas especializados em assuntos franceses. Antoine Glaser e Stephen Smith recuperam os discursos de Sarkozy e já adivinham o falhanço nas intenções do presidente francês. E têm conhecimento de causa para defender essa tese. Há dois anos, escreveram um outro livro que serviu de alerta para a alta diplomacia francesa: “Comment la France a perdu l’Afrique”. Na altura, os dois defenderam que as empresas francesas, lentamente, andam a perder terreno em França.
Como se fosse preciso dar-lhes razão, o Ruanda decidiu que o inglês vai passar a ser a língua oficial do país e de ensino obrigatório desde o primeiro ano de escolaridade.

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5 Responses to África e Sarkozy

  1. madalena diz:

    Admito que sou muito estupida e não entendo o que diz . Podia explicar melhor aquela do SarKozy rodar a agulha para os direitos humanos vs o inglês como língua oficial. Obrigada.

  2. Emídio Fernando diz:

    Explico com gosto: a política francesa nunca se preocupou com a violação dos direitos humanos. Foi sempre virada para os negócios, entende? Sarkozy acha que agora é a hora de se preocupar com isso. Mas não vai ter sucesso. Além de outras questões antigas, o Ruanda já deu o sinal: em vez de Paris, vira-se para Londres (e Washington) Nada mais simples. É assim uma espécie de aviso

  3. Pedro Ferreira diz:

    Um dos aspectos mais desagradáveis da visão que Sarkozy tem da África é um certo complexo de superioridade misturado com um pouco de racismo. Aconselho a leitura do discurso de Dakar que gerou grande polémica em África. Deixo-lhe a parte mais polémica:

    […]
    Le drame de l’Afrique, c’est que l’homme africain n’est pas assez entré dans l’histoire. Le paysan africain, qui depuis des millénaires, vit avec les saisons, dont l’idéal de vie est d’être en harmonie avec la nature, ne connaît que l’éternel recommencement du temps rythmé par la répétition sans fin des mêmes gestes et des mêmes paroles.

    Dans cet imaginaire où tout recommence toujours, il n’y a de place ni pour l’aventure humaine, ni pour l’idée de progrès.
    […]

  4. Emídio Fernando diz:

    É isso mesmo, Pedro. O facto de Sarkozy querer falar sobre os direitos humanso reflecte isso mesmo. É tal superioridade que ele sente ter em relação a África. Nem é surpreendente. Já se esperava que ele tivesse essa atitude antes de ser eleito. A França é que vai perder terreno com essa política. Infelizmente, só a China e os EUA é que vão aproveitar. Por exemplo, em Lisboa anda tudo a dormir. Até desconfio que no MNE nem sabem onde fica África, como a Palin.

  5. David diz:

    Não vejo a questão assim: o contrário seria “business as usual”, uma practica pouco defensável.
    OK, critique-se as “verdadeiras intenções” que o homem possa ter para África, mas não uma postura que me parece abertamente crítica dos regimes africanos.
    Quanto ao facto do Ruanda ter mudado a lingua oficial para ingles parece-me um bom sinal, no sentido em que o fez supoe-se, e creio ser o mesmo que o Emidio supoe, por se sentir pressionado e com menor cobertura diplomatica da França, vendo-se obrigado a mudar a agulha para paises com politicas externas mais “flexiveis”como a China ou os EUA.
    E pela lógica, se não houvesse essas politicas externas mais flexiveis, não teriam para quem se virar.
    E isso é mau?

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