A crise e os modelos: LIBOR/EURIBOR

O interessante artigo Com a corda na garganta de Tiago Mota Saraiva e os comentários que gerou motivaram-me a escrever uns artigos um pouco mais técnicos sobre algumas coisas que a actual crise financeira vai mudar (ou já mudou) no pequeno mundo da matemática financeira, ou se preferirem um termo menos académico na análise financeira quantitativa; as minhas desculpas se a tradução de “quantitative analysis” é demasiado literal mas o longo contacto profissional com os meios francófonos e anglo-saxónicos faz-nos perder o vocabulário português.

Uma primeira vítima da crise são as taxas LIBOR e EURIBOR. Para quem não conhece o mecanismo, o LIBOR é uma média das taxas de juro dos empréstimos entre bancos publicada pela associação de bancos ingleses, EURIBOR é uma média na zona Euro. Como podem verificar num dos comentários do artigo acima citado os spreads são definidos como a diferença entre LIBOR (ou EURIBOR) e a taxa de juro de um empréstimo. A interpretação do spread como a remuneração do risco suplementar de um empréstimo só faz sentido se a base de cálculo, o LIBOR, corresponder à taxa de um empréstimo sem risco. Acontece que com a crise financeira os bancos deixaram de confiar uns nos outros e começaram a aumentar as taxas de juro quando emprestam a outros bancos aplicando o mesmo principio de remuneração do risco. Ou seja o LIBOR já não pode ser usado como referencia da taxa de juro de empréstimos sem risco.

Uma das bases das teorias financeiras mais utilizadas actualmente é o princípio de não arbitragem segundo o qual a única forma de ganhar mais dinheiro que a taxa de juro sem risco é arriscando perder uma parte do investimento, os ingleses chamam a esta hipótese “no free lunch”.

Em quase todas as salas de mercado especializadas em derivados de acções que conheço o LIBOR é utilizado como a taxa de juro sem risco que é um dos principais ingredientes dos algoritmos de valorização e de cálculo de risco. Nas economias ocidentais poderemos utilizar os empréstimos de estado tipo títulos do tesouro como referência para a taxa de juro sem risco, já em países nos quais o estado pode falir o problema é mais complicado.

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