Obama e a Europa branca

No primeiro discurso, como vencedor das eleições presidenciais, Barack Obama começou por fazer uma constatação que nos deve fazer pensar: “Isto é a prova que na América tudo é possível”. E parece que é.
A Casa Branca despede-se de um troglodita e ferozmente ignorante. E recebe um homem inteligente, cultíssimo, persistente, capaz de mover montanhas para atingir os seus fins e filho de imigrantes, produto de uma mistura de raças, oriundo de uma classe média baixa.
O que é possível acontecer nos Estados Unidos, dificilmente poderia ocorrer na Europa iluminista, arrogante da sua História e da sua Cultura.
Se o pai de Barack Obama tivesse imigrado para Portugal, Inglaterra ou mesmo França, dificilmente deixaria de viver num bairro social, depois de ter amargado umas décadas numa barraca, e o filho, Barack, teria 90 por cento de possibilidades de estar a engrossar o número de desempregados ou integraria o exército de trabalhadores indiferenciados, que alternam entre a construção civil e a estiva.
Exceptuando o caso francês – que tem uns membros do governo filhos de africanos – o resto da Europa é branca. Tão branca que as oportunidades de “subir na vida” estão vedadas aos filhos de imigrantes. Tão branca que até propõe grossas muralhas a quem vem de fora.
A vitória de Barack Obama, mais do um marco histórico para os Estados Unidos, é um exemplo para a Europa. E, já agora, para o resto do Mundo sempre tão resistente a aceitar “o outro”.

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21 Responses to Obama e a Europa branca

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  2. Pedro diz:

    Emídio, e qual acha que é a percentagem de hipótese de um filho de um emigrante queniano nos Estados Unidos ser eleito presidente dos Estados Unidos?… Os Estados Unidos não são exemplo para a Europa, pelo contrário. O “outro” é mais aceite na Europa do que nos Estados Unidos. Tem que ter em atenção que os Estados Unidos não é Manhatan.
    E note que, por exemplo, no caso dos Estados Unidos não estamos a falar de “emigrantes”. Estamos a falar de cidadãos plenamente americanos, com ascendentes americanos, que desde sempre estiveram praticamente arredados do governo do seu próprio país. Não me falem do mito do respeito americano pelo “outro”.

  3. Pedro diz:

    Já agora, qual a hipótese de os americanos elegerem para a sua segunda maior cidade, um muçulmano, filho de um imã, nascido em Marrocos?…

  4. GL diz:

    Eu só sei que não há um único deputado africano ou brasileiro na Assembléia da República. Locutores de TV negros, só na RTP África e, estupidamente, o único deputado negro do parlamento pertence ao grupo do CDS-PP.

    Por que os apoiantes de Obama, que são muitos, não se movem para mudar este estado de coisas?

  5. Carlos Fonseca diz:

    Pedro:

    Provavelmente, com o mesmo tom de ressabiado que prefere a confunsão ao debate sério, também perguntaria há 10 anos atrás: QUAL A HIPÓTESE DE OS AMERICANOS ELEGEREM UM PRESIDENTE MESTIÇO, FILHO DE UMA AMERICANA BRANCA E DE UM KENIANO NEGRO?
    QUAL SERIA A SUA RESPOSTA? – pergunto agora eu.

  6. GL diz:

    O problema da Europa nesse particular é ser hipócrita.

  7. GL diz:

    “[…] 05-11-08 por Luis M. Jorge O que é possível acontecer nos Estados Unidos, dificilmente poderia ocorrer na Europa iluminista, … […]”

    Ponho aqui um comentário que fiz lá e não foi publicado:
    É . Por cá, um retornado dá uma opinião e dizem logo que não pode opinar porque é brasileiro.

  8. Pedro diz:

    GL, também não existe nenhum africano ou brasileiro deputado no Congresso Americano.

    Carlos Fonseca, a resposta seria esta: “A HIPÓTESE DE OS AMERICANOS ELEGEREM UM PRESIDENTE MESTIÇO, FILHO DE UMA AMERICANA BRANCA E DE UM KENIANO NEGRO” é muito baixa. Ou não é? Ou acha que a hipótese de um filho de um emigrante queniano ser eleito para presidente dos Estados Unidos é alta? Eu acho que anda à volta de um num milhão (para ser muito optimista). E você, qual é a sua aposta?

  9. Ontem um Palerma ( O mano do presidente da Câmara de LX) na Sic. avançou com a Suécia Iluminada, como país-hipótese de ter um primeiro ministro preto eheh ehe eheh espero que não hajam ninguém tão fantasista por aqui. Na Suécia aquele gajo seria objecto de estudo de cor… andam muito enganados com os nórdicos. acho que mais depressa elegiriam uma rena.
    ………………….
    Claro, que com a educação de vassalagem e de nepotismo e machota da tugalidade, o Obama teria que imigrar.

  10. Su diz:

    eh eh eh, esta Madre é do caneco!
    A questão não é o Obama ser filho de emigrantes, ser afro-americano ou ter pouca experiência política. A questão é: quantos Obamas acham que existem no mundo? Que apresentem a mesma convicção, sistemática e coerentemente. Que façam brotar a vontade de acreditar na mudança em todo um povo, em todo o mundo? Que tenham suscitado um levantamento nacional, a começar pelas bases, que se veio revelar transversal a toda a sociedade. Que colham insólito apoio, da direita à esquerda europeia, do Chavez ao Fidel? Que se façam rodear de uma equipa fantástica, os melhores dos melhores, a vários níveis? Que não usem de golpes baixos. Que desejem ardentemente, intrinsecamente, o melhor para o seu povo (acredito mesmo nisso, agora se vai conseguir ou não são outros quinhentos…e não depende unicamente dele). Em face disto, a raça e a ascendência são meros pormenores.
    Eu não vejo mais nenhum Obama por aí. Se me aparecesse algum… votava nele, mesmo que viesse feito rena.

  11. GL diz:

    “GL, também não existe nenhum africano ou brasileiro deputado no Congresso Americano.

    ahaha, há até um governador austríaco.

  12. GL diz:

    “A HIPÓTESE DE OS AMERICANOS ELEGEREM UM PRESIDENTE MESTIÇO, FILHO DE UMA AMERICANA BRANCA E DE UM KENIANO NEGRO” é muito baixa. Ou não é? Ou acha que a hipótese de um filho de um emigrante queniano ser eleito para presidente dos Estados Unidos é alta? ”

    Pedro, qual será a hipótese de os portugueses elegerem um deputado negro? Nem digo governante. Fico só no deputado. E nascido em Portugal.

  13. GL diz:

    “Eu não vejo mais nenhum Obama por aí. Se me aparecesse algum… votava nele, mesmo que viesse feito rena.”

    Su, só há Obamas na América. Se está a procurar um Obama, não será na Europa de certeza que vai encontrar. Obamas não têm hipótese na Europa.

  14. Su diz:

    GL, os portugueses não deveriam eleger deputados negros, por serem negros. Deveriam eleger cabeças pensantes, independentemente da cabeleireira, falta dela ou carapinha (a palavra carapinha lembra-me sempre o restaurador Olex…)
    Parece-me perigoso e contraproducente irmos agora por aí à procura de um negro ou de um cigano só para mostrarmos que somos “modernos” à lá americana…

    “Obamas não têm hipótese na Europa.”
    Pois tem razão. Mas não penso que seja liminarmente por causa da cor. É porque o sistema está pobre e só chega ao poder quem, no caminho, se deixou corromper, ganhando apoio de lobbys vários e compadrios. Esses favores virão sempre ser cobrados. Os partidos tendem a ser ninhos de víboras, liquidando qualquer espécime que no seu seio se revele mais impoluto, pela perigosidade que representam ao status quo.
    O povo começa a estar mesmo farto de tanto forró, dessa suposta elite, corrupta, que brinca às politiquices e se esquece da vida da gente.
    Os europeus devem tirar as devidas conclusões destas eleições, da lição que se apresenta à nossa frente. Também tem a ver com a cor. Mas tem sobretudo a ver com postura e credibilidade. E acho, sinceramente, que a Europa gostaria de ter o seu Obama. Não é a raça que interessa, é a cabeça. E a miragem (até agora) de uma suposta forma diferente de fazer política.

  15. João Branco diz:

    Em Portugal há dois dirigentes mais escuros que o Obama:

    o Presidente da República e
    o Presidente da Câmara da Capital

    e aquele gajo que bateu na maria josé nogueira pinto! esse gajo é preto e é o maior!

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  17. Su:

    Y mais, muita gente está a pensar que o Obama é “literariamente” tapadinho – aquele brilhozinho nos olhos quando advertiu que em muitas coisas ele teria que decidir contrariamente àquilo que muitos poderiam esperar que fosse a escolha dele – era já ele a demonstrar o seu Golpe de Rins – face à parabola da “Engrenagem” do Jean-Paul-Sartre.
    Com estas ganas, o planeta é um deserto. Sim, há gente por aí amordaçada. Ainda hoje o país inteiro encolheu os ombros face à revelação dos 10 milhões de Euros do Cadilhe como contrapartida à reforma que iria perder se… se se… brincamos. Estamos num planeta em que se aplaudem “Madonnas” de sucesso do Libralismo-vandalo y outros aparatos … à custa do semear a fome y vilania, a escravização mansa y como se nada sangrasse encolhemos o ombros assobiando “são as regras do jogo”. Mas tanto ser pnsante y ninguém se chega à frente??? O Obama fez isso: chegou-se à frente y brandio a melhor arma humana: a Palavra. Pois. Pois. Fiaram-se no Preto! pois. Pis. Como sele não soubesse que era preto y tudo o que isso do Preto acarreta. Viram o resultado. Ali: “Hello. Chicago.” Para além da cor. Assim será com o esfregar de mãos de muitos que acariciam o mito da “Engrenagem”. O Obama está a ver muito à frente y as palavras nele são patins y escorregar? só para o futuro!

  18. João Branco:

    Não é por nada, mas em questões de convivência de tonalidades epidérmicas estamos muito à frente dessa europa fora, em especial a nórdica.
    Nem com a festivaleira Espanha!

    Vou dizer uma(s) enormidades (a Olho), andamos a recambiar ( num sentido bom do termo) os pretos com formação académica para Ministros dos seus Países de nascimento.
    ………….
    PS.: Foi um amigo meu cujo o avô era preto como o bréu y a mãe da cor do Obama que me ensinou a só usar a palavra preto. Assim o faço, ainda hoje.
    ………………..
    Não sei porquê mas já estou a ver os Três cromos das próximas eleições presidenciais: Durão Burroso; Guterres/ Sócrates! Y este País cegueta não virá mais vivalma à face da Terra. Yes We Can ver outros Tugas! que não estes três emplastros e respectivas damas ( excepto o último que n se “decide” dos amores …)

  19. GL diz:

    “GL, os portugueses não deveriam eleger deputados negros, por serem negros. Deveriam eleger cabeças pensantes, independentemente da cabeleireira, falta dela ou carapinha (a palavra carapinha lembra-me sempre o restaurador Olex…)
    Parece-me perigoso e contraproducente irmos agora por aí à procura de um negro ou de um cigano só para mostrarmos que somos “modernos” à lá americana…”

    Su,

    Por acaso discordo de si. Tal como fui a favor das quotas nas listas dos partidos para as mulheres, sou a favor de quotas para outras minorias. Perigoso e contraproducente para quem? Pros de sempre? E pq não podemos ser “modernos”? Não para mostrar, mas pq a modernidade está aí.

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