Vamos perder

A esquerda portuguesa é, sabe-se já, a grande derrotada destas eleições americanas. Antes de mais, porque tem como princípio imutável a crença na estupidez terminal dos americanos: «Se Obama perder é porque os americanos são racistas. Se McCain ganhar é porque o povo americano é estúpido. Se Obama ganhar é porque o povo americano que era estúpido quando elegeu Bush se tornou inteligente.» Pois é. O nosso anti-americanismo primário deixou-nos sem escapatória.
Depois, por muitos foguetes que deitemos, amanhã vamos acordar com a triste realidade de um inquilino da Casa Branca «muito menos “alternativo” do que a esquerda europeia pretende que seja – e será certamente uma desilusão para a esquerda hippie-chique que delira com a figura.» E está visto que «depois de tantas esperanças depositadas em Obama, a desilusão seria muito maior e o clima de pessimismo posterior bastante mais difícil de superar.» Obama opõe-se aos casamentos homossexuais. Obama terá um mandato muito menos multilateralista do que se pensa. Obama é um balão cheio de retórica impossível de concretizar. Obama ainda vai acabar por invadir o Paquistão.
A ideia, já se sabe, é uma só: a esquerda escusa de se animar muito, pois mesmo que a direita pareça ter perdido, ganha na mesma. Conformemos-nos portanto à funesta certeza: «faltam poucas horas para que a esquerda europeia comece a dizer mal de Obama.»

Pelo sim, pelo não, recuso-me a dar-lhes a alegria de terem razão e vou começar já, não daqui a poucas horas: nunca gostei do corte de cabelo de Obama.

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