Voo

Ilustração de Jorge Mateus

Ainda podia sair dali. Se entrasse em pânico, berrando a plenos pulmões, o grande pássaro desligaria os seus motores e ele seria rapidamente colocado em terra. Ninguém gosta de voar com um louco a bordo. E o pânico é tantas vezes contagioso…
Mordeu a língua para esmagar a tentação. Não podia era fechar os olhos. Se o fizesse, regressaria à queda-livre que o assombrava desde que comprara o maldito bilhete: caindo desamparado, preso apenas às regras inexoráveis da gravidade, uivando o seu terror pelos longos e frios quilómetros até ao solo. E caía em horas e horas de agonia. Um kamikaze sem avião; sempre com a certeza da morte por rota.
Este era o seu pesadelo. O seu companheiro de viagem. O prefácio ao seu baptismo de voo. Mas havia outros.
O avião ferido de morte em plena estratosfera. Crianças chorosas procurando o consolo de pais lívidos. Feras de metal implodindo o interior da aeronave; passageiros histéricos empalados, hospedeiras correndo com fúteis máscaras de oxigénio. Ele mesmo, sangrando de um ferimento hediondo, tentando debalde repor dentro do seu corpo novelos de intestinos fugitivos.
Ainda podia sair dali. Se entrasse em pânico, berrando a plenos pulmões, ainda haveria tempo para abortar a descolagem, para chamar uma ambulância, para evacuar o louco do lugar 23F.
Desta vez, cravou as unhas nas palmas das mãos. Não podia ceder ao medo. As esperanças que dependiam daquela viagem. O corredor de rostos sorridentes acenando-lhe despedidas no aeroporto. Como poderia ele continuar a viver entre os seus depois de revelada tal cobardia?
O Airbus acelerou para os céus. De olhos fechados, o passageiro do lugar 23F rezou uma curta oração e acariciou, como um talismã, a carga de explosivos dissimulada no seu anorak. Tudo ia correr bem.

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1 Response to Voo

  1. M. Abrantes diz:

    bem sacado …

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