O país de Sarah Palin

Quando ouvia dizer que os americanos são broncos, sacava logo da cassete do costume: que não, que quem faz do Seinfeld uma das comédias mais populares de sempre só pode ser bem melhor que o povo dos Malucos do Riso, relembrava a quantidade de grandes artistas e o multiculturalismo e Nova Iorque e tudo o mais. Pois bem, Sarah Palin, com a sua corte de Six-pack Joes e o seu garrido gineceu de soccer moms e velhinhas rapture-ready, provou-me que não estava a ver bem a coisa. Os “americanos” não existem. E esta não é uma luta de republicanos contra democratas. Trata-se de conflito bem mais simples: gente civilizada versus turbamulta. A primeira mole, das megalópoles às míticas small towns, divide-se entre os dois grandes partidos. A segunda queda-se indecisa entre milícias ou seitas lunáticas e o apoio a candidatos como Sarah Palin. Rednecks, trailer trash, Bible thumpers, whatever; sempre prontos a abraçar causas desvairadas, a acolher novos ódios e saltar para a rua de punhos, cordas e  bombas engatilhadas. Hoje, tremem o seu medo do comunismo, do terrorismo, do Armagedão que chega com Obama. Eles são aos milhões. Com os seus berros de «kill him», soa o primeiro choque de civilizações que teremos de enfrentar: não com o Outro mas sim com os outros de nós. A guerra intestina já prenunciada no ticket republicano: o urbano e ponderado McCain hipotecando metade da alma ao dark side de Sarah Palin – a devota bulldog de batom matador e verbo incendiário.
Mas de uma coisa podemos estar certos: a mais que provável derrota não acabará com Palin. A vitalidade selvagem da sua “América” vai impedi-la de ir ao fundo com os republicanos. Na noite da eleição, iremos ler-lhe nos lábios as imortais palavras do seu apoiante Schwarzenegger, «I’ll be back». De pública prole sempre a tiracolo, a governadora vingativa que poderia estar a uma batida de coração da presidência vai continuar a assombrar-nos. É que eu não tenho vergonha de admitir: she scares the bejesus out of me.

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