No nonsense

Algures entre o imediatismo e a frequente superficialidade da escrita jornalística e a profundidade por vezes abissal de uma escrita académica que vira de propósito as costas ao público, há lugar para essa admirável invenção inglesa que é o literary journalism (e que é redutor traduzir à letra porque tanto se ocupa de literatura em sentido estrito como de ensaio). Certo, os E.U.A. também têm a New York Review of Books, os franceses La Quinzaine Littéraire e os italianos L’Indice; mas as litterary reviews inglesas – para além do facto não despiciendo de serem aquelas que eu conheço melhor – são simultaneamente as mais antigas (o Times Litterary Supplement, ou TLS, passou a publicação independente em 1914, mais de meio-século antes de qualquer uma das suas congéneres) e as mais acessíveis (a London Review of Books, ou LRB, está largamente acessível na Internet); uma curta história desta excelente publicação pode aliás ser encontrada na última colectânea de ensaios de Perry Anderson, que nos últimos ano tem sido um dos seus grandes animadores.

Algum tempo atrás, Perry Anderson publicou na LRB dois artigos de fundo sobre a cena política francesa (como sempre, a pretexto de livros então publicados sobre o tema, mas extravasando-os largamente), enquanto a Verso (ex-New Left Books) editou uma belíssima antologia de John Sturrock, composta de artigos escritos originariamente tanto para o TLS como para a LRB, intitulada “The Word from Paris” e dedicada a alguns dos principais pensadores e escritores franceses do pós-guerra. O conjunto começa com uma peça sobre a permanência dos “intelectuais” na tradição político-cultural francesa (destinada a desfazer a obra desse moralista irritante que é Tony Judt sobre a matéria) e depois divide-se em duas partes: os pensadores acabam infelizmente em Derrida (a primeira edição do livro é de 1998) e os escritores em Perec (mas aqui eu confesso que não sinto a falta dos seguintes). A escrita é brilhante – informada, inteligente, espirituosa – e contém pérolas inesquecíveis: no artigo sobre Lacan, Sturrock conta como, recém-desembarcado na redacção do TLS, lhe foi atribuída, a título de baptismo de fogo, a missão de telefonar para Paris e informar o Dr. Jacques que o artigo que lhe tinha sido encomendado algumas semanas antes não iria afinal ser publicado, isto porque o TLS tinha por princípio nunca publicar textos que os seus editores não pudessem compreender – e o artigo em questão, escrito em haut-français e usando o peculiar jargão psicanalítico do autor, estava para lá do inteligível. Enfim, a propósito de ideias e de livros, Sturrock prova que há escrita obscura, há escrita clara, no nonsense, e há escrita óbvia: infelizmente, e salvo raras excepções, entre nós só é servida a primeira ou (mais frequentemente) a última. Mas seja: é fim-de-semana e se está ler este blogue é porque tem a imensidão da net à sua frente: perca-se nela e vingue-se.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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