Má educação?

Nos dias que correm, encontra-se um especialista em educação a cada esquina. E todos têm firmes certezas sobre o “facilitismo” e sobre as causas da aparente supremacia do ensino público. Helena Matos, por exemplo, sabe bem que «quem destruiu o ensino público foram aqueles que resolveram fazer experimentalismo social nas escolas», seja lá isso o que for. Ontem, vi o Nuno Crato, cujas opiniões por norma me parecem bem pensadas, pedir para não invocarem o exemplo da Finlândia (nação com escassa retenção e excelentes alunos) pois esse país tem uma educação bem superior à nossa. Graças a este inamovível óbice, nunca poderemos imitar coisa alguma que se faça em paragens mais desenvolvidas: é a derradeira pescadinha-de-rabo-na-boca.
O que eu gostava mesmo de saber é se existe por aí algum estudo que analise a relação entre as taxas de retenção em alunos até aos 12 anos com, por exemplo, os índices PISA. Eu desconfio que nem isto calaria os arautos do tal “facilitismo”, esse horrendo barbarismo, mas não custa tentar.

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14 Responses to Má educação?

  1. A sociologia não estragou só o ensino, estraga as programações culturais com uma facilidade de estrela ovo que agonia. A sociologia anda de manita dada com a economia, sempre para a atirar para o atalho mais tosco …

  2. Ricardo Santos Pinto diz:

    Por que é que os jornais, em Portugal, não são vendidos em pequenas bancas, no meio da rua, com uma caixinha ao lado para se pôr o dinheiro e sem ninguém a controlar, como se faz na Finlândia?
    Afinal, basta copiar o modelo finlandês! A realidade portuguesa não interessa para nada.
    Quanto ao facilitismo, se calhar não interessa muito enveredar por aí. Temos opiniões diferentes.
    Penso que não és professor. Se fosses, se calhar achavas que é facilitismo um aluno transitar com negativa a todas as disciplinas.
    E achavas que é facilitismo um aluno transitar para a 2.ª Classe sem saber ler uma única palavra (porque, já hoje, um aluno não pode ser retido na 1.ª Classe).
    E achavas que é facilitismo fazer exames de 12.º ano de Matemática com perguntas de 4.ª Classe só para ter bons resultados estatísticos.
    E achavas que é facilitismo um aluno poder faltar quanto quisesse – «independentemente da natureza das faltas» (andar a brincar o ano todo, no café ou na caminha), e no fim transitar com uma prova de recuperação que, afinal, pode ser um simples trabalho de casa.
    E achavas que é facilitismo que, se o aluno não fizesse o trabalho de casa, perdão, a prova de recuperação, tivesse direito a uma segunda prova de recuperação.
    E achavas que é facilitismo o Conselho Executivo ser conhecido em muitas escolas, pela brandura dos comportamentos, como o Conselho Divertido.
    E achavas que é facilitismo ter sido abolida a expulsão do aluno como medida disciplinar sancionatória, no caso de esse aluno estar fora da esclaridade obrigatória.
    E achavas que é facilitismo o actual Estatuto do Aluno ter abolido a participação dos professores da turma no processo de suspensão de um aluno.
    E achavas que é facilitismo ocupar os professores com fantochadas como as aulas de substituição ou a sua permanência na Biblioteca ou na Sala de Informática (onde os alunos não vão porque estão na aula de substituição), em vez de ocupar os professores a trabalhar realmente com os alunos que têm dificuldades.
    E achavas que é facilitismo 40 mil alunos com NEE (Necessidades Educativas Especiais) terem perdido o apoio desde o anterior ano lectivo.
    Como não és professor, certamente que, para ti, nada disto é facilitismo. Sabes, custa muito dar tudo por um aluno que simplesmente não tem dificuldades nem problemas mas que, no fundo, não quer saber de nada e que por isso não sabe nada. E, no fim, ser obrigado a transitá-lo.
    Engraçado que, para os alunos, querem copiar o exemplo finlandês. Mas para foder os professores, perdão, para avaliar os professores, foram copiar o exemplo do… Chile. Elucidativo, não?

  3. Luis Rainha diz:

    Não disse que era boa ideia copiar seja o que for. Apenas afirmo que o inverso é absurdo: não se pode copiar pois não somos iguais. Ora se fôssemos iguais, não seria necessário copiar.

    Não sou professor, mas tenho lá 5 miúdos em casa, dos 19 aos 4. o que não faz de mim especialista, mas sim interessado. Consigo concordar com muito do que apontas, como a questão das faltas, sem esforço. Sei, por ter amigos professores, que o processo de avaliação é kafkiano.
    Mas, quanto às transições até aos 12 anos (e só até aqui, nada de 12.º ano) discordamos. E gostava mesmo de saber se há algum estudo que aponte ser uma boa política retê-los.

    Olha, se quiseres, elabora um pouco num texto mais longo as tuas queixas, mete-as aqui, que eu trato de as colocar num post.

  4. Luís Rainha! Isso nem é preciso estudinho sociológico. É uma alta evidência, até para extraterrestre Ceguinho “Mas, quanto às transições até aos 12 anos (e só até aqui, nada de 12.º ano) discordamos. E gostava mesmo de saber se há algum estudo que aponte ser uma boa política retê-los.” Faz um exercício de analogia com a GINÁSTICA DE ALTA COMPETIÇÃO! p. Ex. se não adquires força nos bíceps como podes iniciar os exercício na barra fixa, nas argolas, no cavalo com arções, nas barras… Agora pensa no Juntar as Letras … (Deram-te uma tanga muito bem dada para não equacionares esta evidência, y não considerares esta via como a preferível!!)
    ……………………
    RSP
    Calma! Já sabemos que quem estragou o ensino em PT foram décadas de Horrrrrrrrrrrrrrível Jornalismo. ( Um dia DEMONSTRO!).
    “E achavas que é facilitismo o actual Estatuto do Aluno ter abolido a participação dos professores da turma no processo de suspensão de um aluno.”
    WHAT???? Já vai no Patamar do ridículo?????????????? Mas não é Possível??? Y os Papás do meninos?, ainda vão dizer que bom-bom era mesmo o prof. ficar fora da sala. Mas que Aplauso ao alto bronquismo mental desta Sociedad Civil …
    ( Afastei-me da escola … Ainda bem!) Chocante RSP! Chocante! Deveras Chocante! Y tu ainda te chateias a explicar a coisa?? Não vale a pena!

    PS.: LR … os 5 putos deram-te a volta cá com uma Pinta. Sugiro-te a leitura da Vitoria Camps – virtudes publicas, vícios privados. Tem lá um artigo ( entre outros, todos excelentes) sobre a Educação. Sobre o Professor como o mais próximo exemplo do “mundo” a interagir com os miúdos. A enormíssima importância – VITAL!!!!!!!- da Autoridade. Autoridade de quem está AUTORIZADO!…
    ………..
    Pelo vistos assistimos à derrocada do que era estruturante na Educação! Engolir a coluna vertebral do papel do Prof. … que lástima.

  5. MigPT diz:

    O Raínha tem razão. Para o ano os Finlandeses vêem a Portugal para perceber o milagre da alteração radical do aproveitamento dos alunos, DE UM ANO PARA O OUTRO.
    No espaço de um ano TODOS os alunos ficaram mais inteligentes.

  6. Eu gosto é de transições e retenções e que tais… Chumbem mas é os putos que têm que chumbar e ensinem os que têm a ensinar. Se querem protestos a sério marimbem-se paraas orientações e construam uma nova escola, um novo ensino.

  7. Cristina Gomes da Silva diz:

    Para os defensores das retenções, só uma perguntinha: encontram alguma lógica na retenção global num ano curricular se o aluno só chumbou a algumas disciplinas? Acontece também que quando um aluno repete um ano inteiro, obtém, no ano em que está a repetir, notas mais baixas às disciplinas em que havia obtido aprovação no ano anterior. Acham isto justo? O que acontece muitas vezes é que a retenção funciona como prática dissuasora da prossecução de estudos e no período considerado de escolaridade obrigatória as condições para o seu cumprimento com sucesso têm de ser criadas.

  8. Ricardo Santos Pinto diz:

    Grande prole, Luis Rainha. Parabéns!
    Em breve irei escrever algo mais aprofundado sobre o assunto. Obrigado.

  9. Cristina Gomes da Silva: Estás a bricar, não? “só chumbou a algumas disciplinas”. O “só” significa quantas disciplinas? *pois, afinal os putos Têm é que apreender a virar shoots, sagres, super-bock’s. Aguentar a tola no adensamento do ingestão do fumo de charro. Bué! Bué minha! Muita consola para consolar …
    F-se! Já agora: lança aí uma petição para a retirada da Introdução à Filosofia, sff.
    Bolas! Com adultos assim, não admira a moribunda Sociedade Civil que PT tem. Avante. Avante.

  10. Pois. Os putos vão todos acabar a trabalhar nos “Morangos com Açucar”. Muito sonha esta paidralhada y mãedralhada.

  11. M. Abrantes diz:

    Os que falam em não reter alunos, sustentam um discurso vacuoso se não disserem como vão esses alunos ser recuperados. Ou não é preciso?

    Um aluno chumba a matemática no 10º ano. Passa para o 11º, onde vai aprender conceitos que utilizam os do 10º ano. Como faz? Passa a saber, por arte mágica, só porque não chumbou? Passa a estar motivado só porque não chumbou? O professor do 11º ano tem que lhe ensinar uma matéria retrasada e ao mesmo tempo outra que utiliza essa? Queiram explicar.

    Eu não sei como fazem as coisas na Finlândia. É o mesmo professor que dá a nova matéria e recupera a antiga? No mesmo número de horas? Os alunos que passam sem positiva têm, no ano seguinte, a mesma carga de trabalho dos que têm positiva? Há em cada escola uma estrutura de apoio psicológico que queira entender por que não teve o aluno aproveitamento? Há um mecanismo de envolvimento dos pais, para que o trabalho possa em parte ser feito em casa? Há possibilidade de garantir que cada aluno tem condições mínimas, como um quarto para estudar, alimentação suficiente, etc?

    Conceber uma estratégia em que não haja retenções é fácil (até mete nojo de tão fácil ser). O difícil é que os alunos acabem a formação com um nível de conhecimentos minimamente razoável (a que todos deviam ter direito, e não apenas os alunos que pagam para frequentar escolas privadas, religiosas ou não).

  12. Ricardo Santos Pinto diz:

    Cristina Gomes da Silva,

    E se em vez de terem negativa apenas a algumas discipinas, tiverem a TODAS as disciplinas? Devem transitar na mesma?
    E se essas algumas negativas forem Português, Inglês, História, Matemática, Ciências e por aí fora, também devem transitar?

  13. Nik diz:

    Desde que se inventou, espero que não tenha sido na Finlândia, essa palavra retenção, para significar reprovação, vulgo chumbo, lembro-me sempre de “retenção de fezes”, único contexto em que ocorria o emprego dessa palavra esquisita. E cheira mal…

  14. Cristina Gomes da Silva diz:

    Que acesa vai a discussão. Seria longo argumentar contra tanta má vontade e desinformação. Ninguém conseguirá ler no que escrevi a apologia da passagem sem que se faça prova de bons e capazes conhecimentos. Pôr em prática outras estratégias de ensino-aprendizagem não é assim tão difícil, ou já se esqueceram de como há uns anos atrás floresceu aquele misterioso negócio das explicações privadas dadas pelos mesmos professores que chumbavam (para não falar em retenções) os meninos na escola , e onde eles até obtinham boas provas? E, sim senhor, se chumbarem a todas as disciplinas devem chumbar o ano mas que raio de escola pública, democrática e obrigatória é esta que não “aproveita” nadinha, em nenhuma matéria dos seus alunos? Que professores são estes que declinam a quota parte de responsabilidade que têm, na construção do sucesso ou do insucesso dos alunos?

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