Estatística de Potemkin

Numa célebre passagem de um ensaio de Jorge Luís Borges descreve-se uma enciclopédia chinesa com o sugestivo título de “Empório Celestial dos Conhecimentos Benévolos”. Esse livro estabelece uma útil metodologia de classificação do reino animal, ordenando para todo o sempre os seres menos racionais da seguinte forma: “(a) pertenecientes al Emperador, (b) embalsamados, (c) amaestrados, (d) lechones, (e) sirenas, (f) fabulosos, (g) perros sueltos, (h) incluidos en esta clasificación, (i) que se agitan como locos, (j) innumerables, (k) dibujados con un pincel finísimo de pelo de camello, (l) etcétera, (m) que acaban de romper el jarrón, (n) que de lejos parecen moscas” (Otras Inquisiciones, Alianza Editorial, pp158). Poucas lições são tão importantes, como esta, para a política moderna. A estatística é a ciência do Estado. É fundadora da realidade e não o contrário: para o Estado não é conveniente, nem suposto, que a realidade se reflicta na estatística.

Estou tão feliz com os resultados da Educação: 97 por cento das escolas com as notas positivas! Quase um terço das escolas passou de besta a bestial. As más linguas, muitas das quais insultaram o Magalhães, insinuam que isso seja à custa de uma facilitação abrupta dos testes de matemática. Profetas da desgraça, velhos do Restelo, saibam que não têm lugar nas estatísticas do governo do grande líder. Percebam a verdadeira estrutura da realidade:  a estatísticas melhoram. A comunicação social divulga. A maioria absoluta fica mais perto.

O que importa essa noção filosófica esconsa e potencialmente dissidente que alguns pretendem atribuir à “realidade”.  A verdadeira realidade é como o Natal: é aquilo que um ministro quiser. O encarregado das estatísticas é apenas uma espécie de rena do trenó. Por uma questão de facilidade e rigor histórico podem chamar ao doce quadrúpede de Potemkin.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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