O sexo dos anjos (remix)

“Muito bem – disse Anna a Marty – Já agora também podemos dar uma, embora eu não goste de ti”
Charles Bukowsky no conto “O paraíso não é por aqui”.

Quando o sucessor de Jörg Haider, na chefia do partido, disse que a sua morte tinha sido “o fim do mundo”, o meu amigo Pedro Sales considerou que era uma prova do carácter totalitário da extrema-direita. Estava enganado. A declaração era totalitária, sim, mas como toda a frase dita por um apaixonado.
Jörg Haider era homossexual. O seu sucessor era o seu amante. Foi durante a coligação entre o partido de extrema-direita austríaco e a direita tradicional que uma ministra do partido de Haider propôs legalizar as uniões entre homossexuais. O caso na Áustria não é único. O líder assassinado da extrema-direita holandesa era orgulhosamente homossexual e não tardará a suceder essa saída do armário da extrema-direita nos países católicos do Sul da Europa, como em Portugal.
São boas notícias para a luta dos homossexuais para verem reconhecidos os seus direitos. De uma vez por todas, percebe-se que a orientação sexual não é uma questão sujeita aos ditames do eixo esquerda e direita.
São também excelentes notícias para a esquerda que deve evitar confundir-se com uma simples soma das causas identitárias, por mais “progressistas” que sejam.

Uma esquerda a sério não pode transigir com a falta de liberdade. Impedirem as pessoas de poderem assumir publicamente a sua orientação sexual, ou qualquer parte da sua identidade, é um ataque insuportável à liberdade. Mas esta luta não é forçosamente de esquerda. A busca do prazer, como a estupidez, não está condicionada a opções ideológicas. É verdade que os conservadores e a Igreja têm-se esforçado, desde tempos imemoriais, para desmentir essa afirmação. Como escrevia William Blake, “as prisões são feitas com as pedras da lei, os bordéis com os tijolos da religião”. Mas é sabido que nem só do conservadorismo vive a estupidez: o ascetismo revolucionário também tem dado um excelente contributo à causa. Aliás, para mal da satisfação dos revolucionários, a revolução não significa obrigatoriamente libertinagem, nem as ditaduras têm de forçosamente impedir os prazeres do sexo. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, num conhecido artigo sobre a revolução sexual que posteriormente renegou na sua biografia, o sexo é tão intenso e tão barato que até pode servir para nos distrair.  “Não é por acaso que chamam ao sexo a ópera dos pobres”, escreveu.
À sua maneira Judith Butler e outros pensadores são herdeiros de um certo simplismo reducionista de Engels no seu livro sobre “A Família, a Propriedade e o Estado”. O amigo de Marx, bastante liberal do ponto de vista sexual (vivia com duas irmãs), considerava que a família burguesa patriarcal era a expressão directa do modo de produção capitalista. Defendia que a superação do capitalismo daria origem a uma forma de associação humana e expressão das relações sexuais diferentes.  Na mesma linha que Judith Butler defende que a luta queer pelo reconhecimento, longe der ser uma mera luta cultural, está no centro da contestação do sistema, porque a reprodução sexual está presente no coração das relações sociais de produção, sendo a família nuclear heterossexual uma componente essencial das relações capitalistas de produção.

Simplismo por simplismo (não estou totalmente convencido que a nossa tesão esteja aprisionada pelos ditames políticos), estou mais de acordo com o que escreve Zizek, quando defende que “longe de ameaçar o presente regime de biopoder – para utilizar o termo de Foucault – , a proliferação recente de diversas práticas sexuais (do sadomasoquismo à bissexualidade, passando pelas perfomances drag) é a forma precisa que assume a sexualidade engendrada nas condições presentes do capitalismo mundial, encorajando claramente uma subjectividade caracterizada por identificações múltiplas e mutáveis” (Zizek, Slavoj: Le Spectre Rôde Toujours, pag.19).

Uma esquerda a sério não pode desprezar as identidades, mas não deve esgotar-se nelas. Todos somos de uma classe, de uma raça, de um género, de uma nação, de um clube e de muitas outras coisas. Somos uma espécie de um feixe de identidades. Mas qualquer política baseada numa só identidade é uma recta directa para a estupidez. Faz-me lembrar aquele activista LGBT que dizia durante o referendo da Constituição Europeia: “o texto do tratado é muito mau em muitos sentidos, em termos de direitos laborais é um recuo até à Idade Média, mas como a Carta dos Direitos é melhor para os homossexuais, vou ter que votar ‘sim’ ”. Ou aquelas feministas que defenderam os bombardeamentos israelitas e o emparedamento dos palestinianos, cercados por muros de segurança, justificando que como os árabes reprimem as mulheres, estão abaixo do nível humano. Estas feministas não têm nada de esquerda quando defendem convictas que as bombas de Israel são boas porque acertam nos árabes, lamentando apenas que, tal como à de neutrões que mata só os seres humanos e poupa a propriedade, as armas israelitas não sejam igualmente selectivas: matando os varões e poupando as mulheres. No fundo, defendem, sem dizer, que os árabes são primitivos do ponto de vista dos costumes,logo podem ser bombardeados, mortos e não têm direito a se autodeterminarem como povo.
Qualquer projecto sério de esquerda deve ter a pretensão de ser universal. Deve extirpar o discurso dos relativismos. Uma política que não aspira a ser total, não é política e está no domínio da mercearia. Há muita gente que é contra a ideia de projecto, dizendo que qualquer vontade de mudança cai inevitavelmente no totalitarismo. É preciso dizer que totalitária é a afirmação que não há mudança possível. A ideia que temos de nos contentar com o que há, não passa de um afirmação ideológica disfarçada, por sinal, bastante redutora e totalitária.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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