Liberdade sem classe

O espectáculo encenado pela Renault na Avenida da Liberdade conseguiu, para lá de trazer um Fórmula 1 a Lisboa, coisa que já não se via desde os dias heróicos das corridas em Monsanto, criar a mais insólita das coligações. Dos lojistas instalados no local ao pessoal do Atlântico, passando por amplos sectores olissipófilos.
Mil horrores foram invocados: a protecção do «pavimento de alcatrão que já de si é uma vergonha», o barulho, a poluição (embora o saldo, entre bólides e encerramento ao trânsito, dificilmente seja negativo) e até «a gastança vergonhosa do erário municipal». Quanto a este ponto, estamos de acordo: se a CML não tiver recebido da Renault uma gorda maquia (que tanta falta faz), já tudo isto me parecerá absurdo – mas duvido que assim seja.
No entanto, é a candura de uma das autoras da petição posta a circular pelos lojistas afectados que revela alguns motivos mais interessantes: a ideia é «acabar de vez com os eventos na avenida. “Se as coisas tivessem classe ou fossem bem organizadas teríamos todo o gosto em aderir. Assim é que não”. »
Falou e disse. O que a malta precisa mesmo é “classe”. Quais carros ruidosos, quais marchas populares, qual regresso da peganhenta e suada Volta a Portugal. Faz falta é nobreza, distinção, eventos selectos que enfeitem a contento os passeios dos senhores e dos seus collies. Quase 100.000 palonços estiveram ali sentados, em vez de andarem a inspirar ácaros nos centros comerciais, que é o lugar deles, tão longe das nossas ruas imaculadamente desertas. Imagino que até tenha por ali havido churros e imperiais, essas badalhoquices com que o povoléu gosta de entupir as artérias e escavacar o fígado. Que nojo. Tragam o Bob Wilson para animar o Sábado; o Calatrava para desenhar os novos quiosques; o Tenente para dar elegância e estilo ao Domingo. Queremos ópera, passagens de modelos, queremos o Manuel Alegre a declamar de megafone na mão e até um ou outro desfile de cães, desde que com muito pedigree.
E, já que estão com a mão na massa, acabem com todas as actividades capazes de atrair a malta dos fatos-de-treino ou as tribos dos djambés. Expulsem o Arraial Pride (que nojo, a nobre Praça da Figueira poluída por aquela malta, mais os seus decibéis e as suas barraquinhas espampanantes). Corram com as Marchas, corram com as mil corridas que teimam em dificultar a nossa chegada ao “Bica do Sapato”. (Não esqueçam: mesmo a mais saudável das maratonas também é, nestes dias mercenários, um vil evento comercial, com patrocinadores e muito dinheiro em jogo.) E já me esquecia dessa abominável acumulação de cantorias, barulho e glândulas sudoríferas exaltadas: as manifestações. Tudo proibido, na nossa Nova Lisboa, capital europeia da Classe.
Esta cantilena nunca muda: o que o povo gosta e até pode ter sem pagar é uma colecção de afrontas à hierática nobreza da cidade. As coisas que apoiamos são intervenções meritórias, transfigurações do quotidiano urbano. Com as portas da cidade vedadas a quem não proclame a estratosférica elevação do seu gosto, estamos mesmo condenados à desertificação.

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23 Responses to Liberdade sem classe

  1. ezequiel diz:

    um renault f 1 na avenida da liberdade…a meu ver, o evento já tem toda a “classe ” de que necessita, caro Luís. Nem mais. Foste dar uma vista de olhos no vavavoom ou não?
    adoraria ter visto isto, com muita classe, claro. 🙂

  2. xatoo diz:

    antes de tudo o problema é ético
    qual é a moral de se andar a condenar a economia poluidora em prol do apregoar das “energias limpas” e depois consentir (só porque estamos à rasca de massas) numa renaultalgada destas?
    dá-me impressão que o Costa autárquico não condiz com o Costa ministro

  3. lampiao diz:

    ou muito me engano ou este texto é uma resposta a um outro e, estranhamente, não está linkado. Que me lembre essa é a táctica do Pacheco Pereira

  4. Luis Rainha diz:

    Não está linkado? Olhe que, com o mar de ondas iradas que este evento desencadeou, difícil é escolher…

  5. Piscoiso diz:

    Realmente, aquela artéria, a lisboeta avenida da Liberdade, merecia melhor.
    Uma largada de touros era fixe.

  6. Luis Rainha diz:

    Tivéssemos nós por cá o equivalente a uma “tomatina” e aí é que era bom…

  7. PDuarte diz:

    provocaçãozinha…provocaçãozinha…marooooto!!! ai…ai…

  8. Luis Rainha diz:

    Deixem-se lá de invenções belicosas.

  9. Alfredo P. diz:

    Presumo, então, que está de acordo com a pouca vergonha deste fim-de-semana na Avenida da Liberdade.
    Também deve ter estado de acordo com a desfaçatez da Praça das Flores.
    Idem com a estupidez do encerramento do Terreiro do Paço aos domingos.
    É, portanto, um lisboeta exemplar, um costista sem espinhas.
    Bom proveito!

    PS (muito a propósito…) – Quando descobrir que a cabeça também serve para pensar, diga à gente, está bem, sr. Rainha?

  10. Ricardo Santos Pinto diz:

    Cá para mim, é uma resposta à Fernanda Câncio, que arrasou o evento.
    Ouvi dizer, claro, porque eu cá sou fiel ao «5 Dias». Não leio o Jubileu ou lá como se chama essoutro blogue.

  11. LR diz:

    Alfredo,

    Costista? Mas claro. E eu é que preciso e descobrir que uso dar à cabeça. Claro que só com este presidente é que tivemos marchas, corridas e sei lá mais o quê em artérias lisboetas. Já reparou que esses eventos também têm patrocinadores, certo? Ou para si uma rua ocupada por um destes eventos só é uma calamidade pública em câmaras PS?

  12. Luis Rainha diz:

    Ricardo,
    Poderá não parecer, mas a ideia da falta de “classe” é mesmo de uma representante dos lojistas.

  13. Alfredo P. diz:

    Olhe, Rainha, li a sua reacção ao meu comentário e a única resposta que tenho a dar-lhe é a seguinte: vá-se foder!

  14. Caro Luís

    Só uma dica: o Arraial Pride apenas em 2006 se realizou na Praça da Figueira. Em 2007 e 2008 realizou-se no Terreiro do Paço

  15. Ricardo Santos Pinto diz:

    😉
    Está bem, Luís. Está bem…
    Mas não te preocupes, eu não vou para o Jornadear, fico aqui! Vou só lá num instante chamar a De Puta Madre, essa ovelha tresmalhada, e já volto.

  16. Ricardo Santos Pinto diz:

    Já agora, para dinamizar isto, haviam de criar uma sala de chat. Assim, os utilizadores podiam discutir em directo os assuntos que os preocupam, nomeadamente os dos «posts». Com um moderador, claro…

  17. “Classe” tem tudo o que se faz em Paris… Pois.
    Eu assisti a um evento de Fórmula 1 em plenos Champs Elysées. Para não falar da Volta à França todos os anos. Enfim, certas críticas dizem muito de certos lisboetas.

  18. Luis Rainha diz:

    Paulo,
    Tem toda a razão. Confundi as duas praças.

  19. Ricardo Santos Pinto diz:

    São snobs, alguns lisboetas. Certas pessoas de Esquerda andam sempre com o «povo» na boca, mas povo mesmo, só à distância.

  20. Luis Rainha diz:

    Alfredo, Alfredo… Mas que se passa consigo? Foi a menção ao Arraial Pride que o deixou assim tão… entusiasmado?

  21. Luis Rainha diz:

    Ricardo,
    Por mim, até vos montava aqui um bar de alterne. No entretanto, as janelas de comentários vão ter de bastar. E isso da moderação fica-se pelas regras mais óbvias. Que até nem incluem, ao que parece, a proibição de insultar os hóspedes residentes…

  22. Alfredo P. diz:

    Foi essa menção, sim. Estou doido por te ver o novo fato de drag-queen.

  23. Ricardo Santos Pinto diz:

    O amigo Alfredo deve ser primo do Chico da Tasca. Só pode ser, pelo linguajar da criatura.
    Mas não se amofine comigo. Nem me mande foder. Se eu quiser, vou sozinho.
    E já agora, em casa dos outros, devemos ser educados. Conheço alguém, noutra casa, que nem é preciso qualquer insulto para censurar comentários.
    Ó Rainha, já sabes: quem se mete com o Fredo, leva!

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