Alain Badiou: De que real esta crise é o espectáculo?

“o 5 dias poderia contribuir tb para a discussão, a grande discussão, mais vezes, publicando textos ou linkando textos que sabemos que nenhum orgão da nossa imprensa publicará, nem como culuna de opinião assinada. Lembro-me que quando de momentos (ainda mais) infernais vividos na Palestina, tempos de Jenin, por exemplo, se podiam ler textos de Edward Said em todo o lado menos nos jornais portugueses. O “Público” noticiou a sua morte e agora os 5 anos da sua morte, mas da sua intervenção no momento, nada. O “Le Monde” publicou um interessante texto de Alain Badiou a 18 / 10 sobre a “crise financeira” e por cá nada se sabe, nem deste texto nem de outros nem da obra do autor que festivamente em Portugal se ignora. “De quel réel cette crise est-elle le spectacle”, trata-se de um pequeno texto de opinião, merecedor de tradução ou linkagem, não sei como estas coisas funcionam melhor na blogosfera.”
Carlos Vidal

Tem toda a razão. Para discussão dos nossos leitores o, citado, texto de Alain Badiou, traduzido pelo site brasileiro Carta Maior.

Nas últimas semanas, fala-se frequentemente da “economia real” (a produção de bens). E opõe-se a ela a “economia irreal” (a especulação), de onde viria todo o mal, visto que seus agentes teriam se tornado “irresponsáveis”, “irracionais” e “predadores”. Essa distinção é, evidentemente, absurda. O capitalismo financeiro é, há cinco séculos, uma peça central do capitalismo em geral.

Alain Badiou

Tal qual nos é apresentada, a crise planetária das finanças se parece com um desses maus filmes produzidos pela usina de sucessos pré-fabricados que chamamos hoje de cinema. Nada falta nele, incluindo as aparições que aterrorizam: é impossível impedir a sexta-feira 13, tudo desmorona, tudo vai desmoronar…

Mas a esperança permanece. Diante da cena, aterrorizados e concentrados como em um filme-catástrofe, a pequena quadrilha de poderosos, os bombeiros do fogo monetário, os Sarkozy, Paulson, Merkel, Brown e outros Trichet, gastam milhares de milhões. “Salvar os bancos!”. Esse nobre grito humanista e democrático surge de todas as gargantas políticas e midiáticas. Para os atores principais do filme, ou seja, os ricos, seus servidores, seus parasitas e todos aqueles que os incensam, um final feliz, eu creio, eu sinto, é inevitável, levando em conta o que eles são hoje e o mundo, e os políticos que os cercam.

Voltemo-nos antes para os espectadores desse show, a turba atônita que ouve como uma algazarra longínqua os gritos desesperados dos banqueiros, imagina os finais de semana fatigantes da gloriosa pequena tropa de chefes de governo, vê passar diante de seus olhos cifras tão gigantescas como obscuras, e compara tudo isso mecanicamente com os recursos com os quais vive, ou mesmo, para uma parte muito considerável da humanidade, a pura e simples falta de recursos que forma o fundo amargo e corajoso de sua vida. Eu digo que aí está o real, ao qual não teremos acesso enquanto não nos desviarmos da tela do espetáculo para considerar a massa invisível daqueles para quem o filme-catástrofe, num inesperado final água-com-açúcar (Sarkozy beija Merkel, e todo mundo chora de alegria), jamais passou de um teatro de sombras.

Nas últimas semanas, fala-se freqüentemente da “economia real” (a produção de bens). E opõe-se a ela a “economia irreal” (a especulação), de onde viria todo o mal, visto que seus agentes teriam se tornado “irresponsáveis”, “irracionais” e “predadores”. Essa distinção é, evidentemente, absurda. O capitalismo financeiro é, há cinco séculos, uma peça central do capitalismo em geral. Quanto aos proprietários e animadores desse sistema, eles só são, por definição, responsáveis pelos lucros, sua “racionalidade” é medida pelos ganhos, e não são apenas predadores, como tem o dever de sê-lo.

Não há, portanto, nada mais real na produção capitalista que seu estágio mercantil ou seu compartimento especulativo. O retorno ao real não seria, assim, o movimento que conduz da má especulação “irracional” à saudável produção. Esse retorno é o retorno à vida, imediata e refletida, de todos aqueles que habitam esse mundo. É a partir dessa posição que se pode observar sem fraquejar o capitalismo e o filme-catástrofe que ele nos apresenta nestes dias. O real não é o filme, mas a sala.

O que vemos, assim, retornando? Vemos coisas simples e conhecidas de longa data: o capitalismo não é nada além de um banditismo, irracional em sua essência e devastador em seu futuro. Ele sempre cobrou, por algumas curtas décadas de prosperidade selvagemente desiguais, com crises ou desaparecimento de quantidades astronômicas de valores, com expedições punitivas sanguinárias em todas as zonas consideradas por ele como estratégicas ou ameaçadas, com guerras mundiais por meio das quais sua saúde é refeita.

Deixemos ao filme-crise, assim revisto, sua força didática. Podemos ainda ousar, face à vida das pessoas que o assistem, nos vangloriar de um sistema que remete a organização da vida coletiva às pulsões mais baixas, à cobiça, à rivalidade, ao egoísmo? Fazer o elogio de uma “democracia” onde os dirigentes são tão impunemente os empregados da apropriação financeira privada que espantaria o próprio Marx, que já qualificava esses governantes, há 160 anos, como funcionários do poder do capital? Afirmar que é impossível tapar o buraco da segurança social, mas que devemos tapar, com bilhões, o buraco dos bancos?

A única coisa que podemos desejar nesta questão é que descubramos o poder didático nas lições que podem ser tiradas para os povos, e não para os banqueiros, para os governos que os servem e para os jornais que servem aos governantes, em toda essa cena sombria. Eu vejo dois níveis articulados deste retorno do real. O primeiro é claramente político. Como o filme tem mostrado, o fetiche “democrático” não passa de um serviço solícito aos bancos. Seu verdadeiro nome, seu nome técnico, como proponho há muito tempo, é: capital-parlamentarismo. Convém, pois, como múltiplas experiências começaram a fazer nos últimos vinte anos, organizar uma política de natureza diferente. Ela é e estará – por muito tempo ainda, sem dúvida – distante do poder do Estado, mas pouco importa. Ela começa, na base do real, pela aliança prática das pessoas mais imediatamente disponíveis para inventa-la: os novos trabalhadores vindos da África ou de outros lugares, e os intelectuais herdeiros das batalhas políticas das últimas décadas.

Ela se ampliará em função do que houver a fazer, ponto por ponto. Ela não manterá nenhuma espécie de relação orgânica com os partidos existentes e o sistema, eleitoral e institucional, que os mantém vivos. Ela inventará a nova disciplina daqueles que não têm nada, sua capacidade política, a nova idéia do que seria sua vitória.

O segundo nível é ideológico. É preciso inverter o velho veredito segundo o qual estaríamos vivendo “o fim das ideologias”. Vemos hoje, muito claramente, que essa pretensão não tem outra realidade do que a expressa pela palavra de ordem “salvemos os bancos”. Nada é mais importante que reencontrar a paixão das idéias e por ao mundo tal qual ele é uma hipótese geral, a certeza antecipada de um outro curso de acontecimentos totalmente distinto. Ao espetáculo maléfico do capitalismo, nós opomos o real dos povos, da existência de todos no movimento próprio das idéias. A motivação de uma emancipação da humanidade não perdeu em nada sua força. A palavra “comunismo”, que durante muito tempo nomeou essa força, foi certamente aviltada e prostituída.

Mas, hoje, sua desaparição só serve aos mantenedores da ordem, aos atores febris do filme-catástrofe. Nós iremos ressuscitá-la, em sua nova claridade. Que é também sua antiga virtude, expressa quando Marx dizia, a propósito de comunismo, que ele “rompia da forma mais radical com as idéias tradicionais” e que fazia surgir “uma associação onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”. Ruptura total com o capital-parlamentarismo, política inventada a partir do real popular, soberania da idéia: tudo está aí para nos tirar do filme da crise e nos remeter à fusão do pensamento vivo e da ação organizada.

* Alain Badiou é filósofo, escritor e editor. Artigo publicado no jornal Le Monde (17/10/2008)

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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