Uma explicação

No Verão de 76 ou 77, já não me lembro bem, descobri lá em casa um livrinho chamado “As Palavras”, escrito por um tal de Jean-Paul Sartre e editado numa colecção chamada Unibolso (de livros que não cabiam no dito), que eu tratei de ler. O meu pai escarneceu da empresa, achava que era um prémio de consolação que eu queria atribuir a mim próprio por não conseguido passar da página 15 de “La nausée” uns meses antes, e eu acho que alguma razão ele deveria ter, porque o livro não me fez grande impressão, e deveria ter feito. Por essa suspeita me ter perseguido entretanto é que, em Agosto passado, estando eu em Paris e sem nada para ler (tinha avaliado mal a “Drôle de Vie”, da Elisabeth Vailland, que é impresso em corpo 14 ou coisa parecida e se despacha em meia-dúzia de horas), entrei numa FNAC, fui aos poches e comprei o “Les mots”. Depois li-o e reli-o e achei que o meu pai tinha tido razão, porque trinta anos antes eu tinha passado ao lado de uma das mais geniais autobiografias (por assim dizer, porque cobre apenas a infância do autor) da história da literatura mundial (peço que não me julguem pedante por isso, mas devo acrescentar que lê-la no original ajuda a perceber a sua beleza mais “plástica”, à falta de melhor definição). Enquanto li e reli o livro, extraí dele meia-dúzia de episódios com nexo entre si, que me diverti a estropiar e a deslocar para o português e até, às vezes, para Portugal: compõem “Les histoires du petit Poulou” (o nome que a mãe chamava ao pequeno Jean-Paul) que vos impingi durante algumas semanas. Agora que lhes dei uma forma final, em exactamente mil palavras, podem encontrar as passagens do “Les mots” que lhes deram origem nas páginas 23, 128, 162 (no final), 170 e 178 desta edição on-line da obra, enquanto “Les histoires du petit Poulou” podem ser lidas carregando em

Les belles lettres

Neste Verão, para visitar o meu amigo M., que agora mora no sul de Inglaterra, à beira do Avon, entre vários manors de belo efeito, atravessei por duas vezes o Canal. Porque percorri rotas ainda desconhecidas, e graças também a uma prudente toma prévia de Vomidrine, pude apreciar devidamente ambas as viagens. A linha das costas, a silhueta das cidades, o tráfego marítimo, a agitação dos portos – tudo foi visto claramente visto, em tudo eu encontrei interesse, sobre tudo eu reflecti e conversei. Na viagem de regresso, reconheci a figura de J.-M.D., famoso pensador francês, que deu uma conferência em Lisboa há poucos anos; enquanto eu observava, raciocinava, discutia – e sobretudo me divertia – J.-M.D. não saía do seu lugar, não via nada, parecia permanentemente absorto em algum problema de tão transcendente importância que o impedia de tomar contacto com o cenário exaltante que o rodeava. Devo retirar deste pequeno episódio a confirmação da superioridade da inspiração literária sobre a árida filosofia?

Vento nas árvores

Num lugar de Trás-os-Montes, num quente fim de tarde de Verão, uma jovem mulher doente, sozinha no primeiro andar de uma casa isolada no campo, revolve-se na cama; através da janela aberta, os ramos de um castanheiro entram-lhe pelo quarto dentro. No rés-do-chão, falam várias pessoas, enquanto lá fora a noite cai; subitamente, alguém aponta para o castanheiro e diz: “-Olhem, afinal parece que há vento!” Os outros admiram-se e saem todos para o quintal: com efeito, nem um só sopro de vento perturba o lusco-fusco, mas a folhagem do castanheiro não cessa de se agitar. Nisto, ouve-se um grito de terror: o marido da jovem doente lança-se pelas escadas acima e encontra-a como que acossada, as costas espalmadas contra a parede, apontando trémula a árvore que se abana violentamente à sua frente; depois cai fulminada, morta, e o castanheiro regressa ao seu sossego habitual. Que terá ela visto? Um louco tinha-se escapado antes de um asilo; terá sido ele, escondido na árvore, que lhe terá mostrado a sua face assustadora; foi ele, teve de ser ele, porque essa é a única razão que pode explicar o sucedido. E no entanto… Porque é que ninguém o viu subir à árvore, nem descer? Porque não ladraram os cães da casa? E como é que o louco pode ter sido capturado, apenas seis horas depois, a mais de cem quilómetros dali? Tudo perguntas sem resposta. A acreditar no povo daquele lugar, terá sido a própria Morte que a jovem mulher terá visto (La jeune fille et la mort, recorde-se) e terá sido Ela que sacudiu os ramos do castanheiro, diga lá o que disser a tal da razão.

A homenagem

No tempo em que a poesia detinha ainda o prestígio a que deveria sempre ter direito, o velho poeta C. aguardava o seu comboio numa pequena estação das Beiras, perdida entre penhascos, sem ninguém por perto. O poeta não tinha graça: tinha caspa, dedos gordos e era desagradável no trato, irritadiço; enquanto esperava, irritava-se ainda mais, pensava na sua próstata, nas suas dívidas, à tous ses petits et gros enmerdements. Nisto ouve-se o tropel de um cavalo e do nada surge uma pequena carruagem, guiada pela jovem e bela condessa de O.. Ela salta do seu cabriolet, dirige-se ao velho poeta que nunca tinha visto antes, mas que reconhece de um daguerreótipo que antes vira, inclina-se perante ele e beija-lhe a mão (os dedos gordos), dizendo-lhe: “-Condessa que sou, não me preocupo com o que pense do meu gesto, mas pretendo que saiba que não é a si que eu presto homenagem, é à sua obra”. Estamos a muitas léguas da civilização, numa paisagem quase desértica, agora sob um pôr-de-sol de fogo; a Condessa de O. parte tão subitamente quanto tinha chegado e a sua imagem depressa desaparece no horizonte; e o comboio continua sem chegar. Enquanto não chegava, o velho poeta (lembrem-se do “Vento nas árvores”) juntava mais uma às suas pequenas e grandes irritações e dizia para consigo que aquela Condessa, de quem nunca ouvira falar, não era senão a Morte, a convidá-lo para o Panteão dos Poetas.

A ilusão retrospectiva

Eis no que consiste a ilusão retrospectiva: sobre o tumulto quotidiano, cai como que um grande e fabuloso manto silencioso e branco que suspende o tempo e transfigura tudo: a vida passa então a viver-se do fim para o princípio, a história ganha um sentido inequívoco e onde antes havia dilemas passa agora a haver apenas des faits accomplis. Exemplo maior: um pequeno chamado Luís, que tanto queria seguir a carreira das armas como a das letras, e numa mão empunhava a espada e noutra a pena se não o contrário, surpreendeu um dia a família e as visitas lá de casa quando, depois da ceia, disse de um só jacto umas estâncias muito bem medidas; depois continuou a brincar aos mata-mouros, a ponto de se ferir numa vista; e quando subiu ao quarto, alguém (decerto um barão assinalado) disse a benefício da humanidade: “-Este rapaz tem futuro!” Exemplo menor: a história da minha filha F., contada hoje como se fosse daqui a dez anos, quando eu já tiver sabido o que lhe aconteceu. Exemplo ad absurdum: “-Claro, era isso, como foi possível eu não me ter lembrado?!”

O sapateiro que julgava ser rei

Num hospício, um louco gritava no seu leito, apontando para o retrato do Rei na parede da enfermaria: “-O Rei sou eu! Que alguém prenda esse impostor!” Nisto alguém se aproximava dele e dizia-lhe baixinho, junto à orelha: “-Enxerga-te”, e ele aí caía em si, e depois essa pessoa perguntava-lhe, sempre no mesmo tom: “-Que fazes tu na vida?” e ele respondia, também baixinho, e com uma voz obediente: “-Sou sapateiro”, isto até desatar a gritar outra vez que era o Rei, e o verdadeiro, e alguém falar-lhe de novo ao ouvido, e ele calar-se, e assim por diante, e assim somos todos nós, também reis e sapateiros (e alguns de nós verdadeiros).

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SEXTA | António Figueira
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3 Responses to Uma explicação

  1. ricardosantospinto diz:

    O quê?

  2. O teu filho diz:

    Achei muito graça às tuas histórias. Mas,(hà sempre um MAS) porquê só as mostrar no blog?

  3. Zé ninguém diz:

    Que grande treta

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