A mão bem visível dos nossos genes? (2)

O que é a intolerância à lactose? Para o senso comum europeu, trata-se de uma anomalia, uma “doença” que impede alguns adultos de absorver o açúcar do leite (a lactose). Só que isto não corresponde de todo à realidade: ainda hoje a grande maioria da população mundial deixa de ser tolerante à lactose quando ultrapassa os quatro anos de idade. Se a quase totalidade dos suecos e holandeses pode consumir leite à vontade, a percentagem desce para o sul da Europa e noutros continentes: metade dos espanhóis e quase 99% dos chineses apresenta intolerância à lactose.
A responsabilidade é de uma mutação que terá ocorrido há cerca de 6.000 anos na zona norte-centro da Europa, como foi verificado pelo exame do ADN de esqueletos do Neolítico. A capacidade de consumir leite na idade adulta, numa sociedade que já se dedicava à pastorícia, foi um forte factor de sobrevivência para os portadores dessa mutação, pois permitia-lhes acesso a um nutriente rico, mesmo quando rareava a caça, e a um líquido bacteriologicamente controlado, sem os contaminantes letais presentes na água salobra. Este gene acabou por se constituir numa influência que moldou a economia e a sociedade humana: reforçando, num processo de realimentação contínuo, a importância da pastorícia em comunidades que integravam cada vez mais indivíduos capazes de assimilar o leite. A mutação não criou a pastorícia; mas por certo que a expandiu tremendamente. Em África, estudos recentes assinalam a progressão de duas mutações mais recentes que criaram dois focos de exploração intensiva da pastorícia, na zona da Tanzânia e no Médio-Oriente, num caso bem documentado de evolução convergente entre genes e cultura. Como se vê, a selecção natural na nossa espécie está longe de esgotada. Isto mesmo em tempos historicamente próximos do nosso: existem fortes indícios de que há cerca de 200 anos os seus efeitos ainda se faziam sentir entre a população de Porto Rico. E nada nos assegura que não se mantém em marcha, apesar da quase anulação das pressões selectivas em populações com fácil acesso a cuidados médicos modernos.
De acordo com a teoria da herança dual, nada neste fenómeno (e nem mesmo na polémica tese de Gregory Clark) implicaria uma transmissão genética de aptidões ou inclinações. A passagem de valores de geração em geração é explicável por concepções clássicas de educação e nurturing, e o reforço mútuo entre a influência de genes e a cultura não implica a existência de mutações “orientadas” pelas necessidades humanas. No caso da lactose, a propagação do gene que evita a intolerância favorece a intensificação das actividades pecuárias; e esta acaba por aumentar as probabilidades de sobrevivência dos portadores do gene em questão. Naturalmente, não se verifica qualquer necessidade teórica de atribuir uma origem genética à inclinação para a criação de animais leiteiros.
O autor de A Farewell to Alms, mesmo ciente disto, optou pela explicação mais controversa: “o triunfo do capitalismo no mundo moderno pode assim jazer tanto nos nossos genes como na ideologia ou na racionalidade”. O que é sem dúvida arriscado mas fornece bases para especulações de âmbito quase ilimitado.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

8 Responses to A mão bem visível dos nossos genes? (2)

  1. bloom diz:

    ok, Rainha, isso é tudo muito interessante mas o que eu gostava mesmo de saber é se a rapariga da foto é a Clare bear do Heroes, a nossa cheerleader preferida…

  2. Luis Rainha diz:

    Vejo que não és intolerante à lactose.

  3. ricardosantospinto diz:

    Curiosamente, o Homem é o único animal do planeta que bebe leite depois da infância. E, como está provado, não precisaria de bebê-lo.

  4. Carlos Gil diz:

    uma dúvida transversal, afinal só um pensamento e não a procura dalguma resposta: a intolerância da doença de Cronh a lacticínios e derivados terá a ver com a tal mutação?

    obrigado por ninguém responder. é que há setenta anos que ninguém responde e muito realísticamente não acredito que seja nesta caixa de comentários – por mui nobre que ela seja e é-a – que venha o “Eureka!” 🙁

  5. Carlos Gil diz:

    ah! a Clare é mesmo “fabulástica”! (embora a Niki, enfim…)

  6. Carlos Gil diz:

    “Crohn” e não Cronh 🙁

Os comentários estão fechados.