O despertar dos mágicos

John Heartfield

A actual crise económica e financeira não é devida à má gestão de alguns, é, pelo contrário, inerente ao próprio sistema. O capitalismo vive a revolucionar tudo e todos. A crise não aparece necessariamente como um estertor, mas como uma superação de contradições. Como dizia Schumpeter, na única frase dele que toda a gente conhece, a crise é “uma destruição criativa”. Não quer dizer isso que o capitalismo não surja enfraquecido, na sua forma actual, nos dias de hoje, apenas quer dizer que a crise económica sozinha não cria alternativas ao sistema. É óbvio que o papel do Estado vai mudar nos próximos tempos, mas isso faz-se no quadro deste modo de produção e não fora dele. A superação, aparentemente impossível, do capitalismo, só pode ser feita no quadro da construção de uma alternativa política. O historiador marxista Hobsbawm vem realçar, no quadro da inexistência de alternativas de esquerda, o perigo político do reforço da direita racista. Como nos anos 30, corremos o risco do ascenso da extrema direita como forma de resposta simples à complicação do mundo. Leia esta entrevista muito interessante concedida à BBC pelo historiador.

Crise expõe perigo de fortalecimento da direita, diz Hobsbawm

O britânico Eric Hobsbawm, considerado um dos historiadores mais influentes do século 20, disse à BBC nesta terça-feira que o maior perigo da atual crise financeira mundial é o fortalecimento da direita.

“A esquerda está virtualmente ausente. Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita”, disse Hobsbawn, em entrevista à Rádio 4.

O historiador marxista comparou o atual momento “ao dramático colapso da União Soviética” e ao fim de “uma era específica”.

“Agora sabemos que estamos no fim de uma era e não se sabe o que virá pela frente.”

Hobsbawn diz não acreditar que a linguagem marxista, que lhe serviu de norte ao longo de toda sua carreira, será proeminente politicamente, mas intelectualmente, “a análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante”.

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Muitos consideram o que está acontecendo como uma volta ao estadismo e até do socialismo. O senhor concorda?

Bem, certamente estamos vivendo a crise mais grave do capitalismo desde a década de 30. Lembro-me de um título recente do Financial Times que dizia: O capitalismo em convulsão. Há muito tempo não lia um título como esse no FT.

Agora, acredito que esta crise está sendo mais dramática por causa dos mais de 30 anos de uma certa ideologia “teológica” do livre mercado, que todos os governos do Ocidente seguiram.

Porque como Marx, Engels e Schumpter previram, a globalização – que está implícita no capitalismo -, não apenas destrói uma herança de tradição como também é incrivelmente instável: opera por meio de uma série de crises.

E o que está acontecendo agora está sendo reconhecido como o fim de uma era específica. Sem dúvida, a partir de agora falaremos mais de (John Maynard) Keynes e menos de (Milton) Friedman e (Friedrich) Hayek.

Todos concordam que, de uma forma ou de outra, o Estado terá um papel maior na economia daqui por diante.

Qualquer que seja o papel que os governos venham a assumir, será um empreendimento público de ação e iniciativa, que será algo que orientará, organizará e dirigirá também a economia privada. Será muito mais uma economia mista do que tem sido até agora.

E em relação ao Estado como redistribuidor? O que tem sido feito até agora parece mais pragmático do que ideológico…

Acho que continuará sendo pragmático. O que tem acontecido nos últimos 30 anos é que o capitalismo global vem operando de uma forma incrivelmente instável, exceto, por várias razões, nos países ocidentais desenvolvidos.

No Brasil, nos anos 80, no México, nos 90, no sudeste asiático e Rússia nos anos 90, e na Argentina em 2000: todos sabiam que estas coisas poderia levar a catástrofes a curto prazo. E para nós isto implicava quedas tremendas do FTSE (índice da bolsa de Londres), mas seis meses depois, recomeçávamos de novo.

Agora, temos os mesmos incentivos que tínhamos nos anos 30: se não fizermos nada, o perigo político e social será profundo e ainda mais depois de tudo, da forma com a qual o capitalismo se reformou durante e depois da guerra sob o princípio de “nunca mais” aos riscos dos anos 30.

O senhor viu esses riscos se tornarem realidade: estava na Alemanha quando Adolf Hitler chegou ao poder. O senhor acredita que algo parecido poderia acontecer como conseqüência dos problemas atuais?

Nos anos 30, o claro efeito político da Grande Depressão a curto prazo foi o fortalecimento da direita. A esquerda não foi forte até a chegada da guerra. Então, eu acredito que este é o principal perigo.

Depois da guerra, a esquerda esteve presente em várias partes da Europa, inclusive na Inglaterra, com o Partido Trabalhista, mas hoje isso já não acontece.

A esquerda está virtualmente ausente, Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita.

O que vemos agora não é o equivalente à queda da União Soviética para a direita? Os desafios intelectuais que isto implica para o capitalismo e o livre mercado são tão profundos como os desafios enfrentados pela direita em 1989?

Sim, concordo. Acredito que esta crise é equivalente ao dramático colapso da União Soviética. Agora sabemos que acabou uma era. Não sabemos o que virá pela frente.

Temos um problema intelectual: estávamos acostumados a pensar até então que havia apenas duas alternativas: ou o livre mercado ou o socialismo. Mas, na realidade, há muito poucos exemplos de um caso completo de laboratório de cada uma dessas ideologias.

Então eu acho que teremos de deixar de pensar em uma ou em outra e devemos pensar na natureza da mescla. E principalmente até que ponto esta mistura será motivada pela consciência do modelo socialista e das conseqüências sociais do que está acontecendo.

O senhor acredita que regressaremos à linguagem do marxismo?

Desde a crise dos anos 90, são os homens de negócio que começaram a falar assim: “Bem, Marx predisse esta globalização e podemos pensar que este capitalismo está fundamentado em uma série de crises”.

Não acredito que a linguagem marxista será proeminente politicamente, mas intelectualmente a natureza da análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante.

O senhor sente um pouco recuperado depois de anos em que a opinião intelectual ia de encontro ao que o senhor pensava?

Bem, obviamente há um pouco a sensação de schadenfreude (regozijo pela desgraça alheia).

Sempre dissemos que o capitalismo iria se chocar com suas próprias dificuldades, mas não me sinto recuperado.

O que é certo é que as pessoas descobrirão que de fato o que estava sendo feito não produziu os resultados esperados.

Durante 30 anos os ideólogos disseram que tudo ia dar certo: o livre mercado é lógico e produz crescimento máximo. Sim, diziam que produzia um pouco de desigualdade aqui e ali, mas também não importava muito porque os pobres estavam um pouco mais prósperos.

Agora sabemos que o que aconteceu é que se criaram condições de instabilidades enormes, que criaram condições nas quais a desigualdade afeta não apenas os mais pobres, como também cada vez mais uma grande parte de classe média.

Sobretudo, nos últimos 30 anos, os benefíciários deste grande crescimento têm sido nós, no Ocidente, que vivemos uma vida imensuravelmente superior a qualquer outro lugar do mundo.

E me surpreende muito que o Financial Times diga que o que se espera que aconteça agora é que este novo tipo de globalização controlada beneficie a quem realmente precisa, que se reduza a enorme diferença entre nós, que vivemos como príncipes, e a enorme maioria dos pobres.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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15 Responses to O despertar dos mágicos

  1. Chico da Tasca diz:

    É claro que por cá esse perigo não existe porque só há liberdade de expressão do CDS para a esquerda. Do CDS para a direita há um controlo estrito e censório de tudo o que é dito, por parte de uns auto-instituidos vigilantes do politicamente correcto, como é o caso do Sá Fernandes na CML.

    Ou seja, se eu, pagador de impostos e a quem enfiaram na cabeça de que isto é uma Democracia, me apetecer ouvir ou ler as mensagens do PNR, não posso, porque o Sá Fernandes é mais cidadão do que eu, e é ele que delibera quilo que eu posso ler ou ouvir.

    Portanto, se existe perigo de ascensão dos alegados defensores de idéias racistas, isso não se aplica cá ao burgo, porque lhes é negado o direito de se exprimirem.

    Ao que parece, há uma coisa qualquer na Constituição que proibe ideologias que atentem contra os direitos dos individuos. Só que, nesse particular, a Constituição fica à porta de, por exemplo, o Partido Comunista Português.

    Enfim, é uma Democracia muito selectiva, em que uns se arrogam o direito de pensar pelos restantes, donde as preocupações emanadas deste post são totalmente contrapoducentes.

  2. reaça diz:

    O que é que este rançoso xico da tasca quer?O texto é demasiado prafrentex e o fulano não alcança mais…!

    ‘Destruíram-se comunidades e indústrias inteiras porque «os mercados» assim o exigiam, e «o contribuinte» não podia sustentar «ineficiências». Tivemos que suportar os defensores e promotores do capitalismo selvagem (como José Sócrates) a dizer que o problema eram os funcionários públicos, os trabalhadores com contratos, os sindicatos, os comunistas, as leis laborais, os bairros sociais. Mas quem provocou a derrocada que agora varre o planeta? Foram os «respeitáveis» senhores do dinheiro, os famosos «mercados», que andaram a saquear à grande e à americana. E agora pedem «ao contribuinte» para suportar os custos da sua pilhagem. Com os directores de bancos, que levaram milhares de milhões para casa, a gerir a coisa.
    Está na hora de pôr fim a esta praga.

    N’odiario.info de ontem há uma entrevista de Hobsbawm .

  3. Antónimo diz:

    Sr. Chico, já rapou o cabelo hoje? É que a prosa é de bota cardada!

  4. ezequiel diz:

    se alguém desejar visitar o meu humble abode

    http://ezequielmotta.blogs.sapo.pt/

    cumps,

  5. Chico da Tasca diz:

    Meu amigo as coisas presentemente são assim : um censor do Estado-Novo é uma coisa inadmissivel, própria de reaccionários e de fascistas. Um censor do Bloco de Esquerda, é uma coisa excelente e própria de uma sociedade progressista.

    Esta treta do papão do fascismo, do racismo, da xenofobia, é isso mesmo : uma treta, com que os fundamentalistas “progressistas”, muitos deles mais fascizóides e intolerantes que os da outra senhora, nos massacram os neurónios, para poderem assentar os traseiros progressistas nos cadeirões burgueses da AR, e mamarem umas mordomias à nossa conta. Sem terem de trabalhar, claro.

  6. Muito interessante a entrevista, como não poderia deixar de ser vindo de E. Hobsbawn.
    Só alguns reparos. Penso que Hobsbawm está a exagerar quando fala da quase irrelevância da esquerda, nesses duros anos trinta. Não nos podemos esquecer da Frente Popular no “hexágono”, ou de que na Alemanha os partidos social-democrata e comunista eram fortes. Ou para não ir mais longe, a vitória eleitoral das forças que constituíam a República, na vizinha Espanha de então.
    Mas partilho das inquietações de Hobsbawm quanto ao futuro, pq a esquerda, para o que verdadeiramente conta, é hoje quase inexistente. E aí, o discurso mais assertivo da extrema-direita pode fazer toda a diferença.

  7. Luis Moreira diz:

    Tanta cultura.A esquerda, está como está, porque quando é governo faz o que se vê!É só isso! Não estou a dizer que caminhe para o socialismo, porque lhes falta vontade e talento.Mas,ao menos, não andem de braço dado com os capitalistas que vivem de Estados fracos e mercados selvagens.A economia de mercado,no quadro de uma política de esquerda,deixaria a selvejaria chegar onde chegou?Se sim, não há lamentos!

  8. Stran diz:

    Mau caro Chico,

    “Meu amigo as coisas presentemente são assim : um censor do Estado-Novo é uma coisa inadmissivel, própria de reaccionários e de fascistas. Um censor do Bloco de Esquerda, é uma coisa excelente e própria de uma sociedade progressista.”

    O problema é ter a cabeça a pender demasiado para a direita. Se conseguir equilibrar, por 5 segundos, a cabeça verificará que a realidade é completamente diferente do que agora acredita que é.

    Essa sua comparação é simlpesmente estupida. Assim como é estupido dizer que não pode ler as mensagens do PNR. Basta ir ao site deles.

    Quanto à sua visão do mundo politico é tão estupido como a sua comparação.

    Se não perceber os motivos eu depois explico-lhe. Afinal gosto de dar o beneficio da duvida.

    Até já,

    Stran

  9. Saloio diz:

    Caro RNA: só não concordo com o título do post – injustamente tirado do título de um dos livros mais emblemáticos e interessantes do século passado. É injusta a sua associação ao renascimento de líderes totalitários…

    Digo eu…

  10. Ezequiel, então? e a gente não molha a letra? Não à vale!

  11. A esquerda tem a vantagem de ser ter adaptado à arte camaleónica. De quando em vez, faz o seu up-date de princípios e escapa sempre à selecção Natural … ou não fosse feita tb por homens, y como é clássico O PODER comanda … deresto é só instrumentalizar mais/menos medozinho aqui y ali y no além tb se for preciso …

  12. o sátiro diz:

    gostei dessa do dramático colapso da urss. Ficou a chorar por fecharem centenas d campos d concentração onde morreram milhões de seres humanos. E não tem vergonha d chorar em público. E há quem grame o gajo. Percebem pq a esquerda não presta e não vai lá?

  13. nuno castro diz:

    o “sátiro” há-de ser um dos primeiros a ficar sem cabeça quando a esquerda chegar “lá”. Ou esqueceu-se que já vai nos 20% e com tendência para subir?
    Quanto ao Hobsbawm, se eu deixasse de ler Leo Strauss só porque é de extrema-direita (????ehehehehe) só mostrava ignorância.

    vá masé ler Hobsbawm e deixe de ser bronco!!!
    (não apenas pensa mal como ainda se orgulha disso)

  14. ezequiel diz:

    de puta madre: lamento, mas não disponho de tempo para andar a responder a comentários. tenho por hábito responder a todos os comentários, que raramente são muitos. trate o blog como um diário. além disso, devo confessar que já estou farto de discussões histéricas nos comentários. é uma coisinha modesta, só para divertir. apareça, se gostar.

    Nuno,

    Leo Strauss, de extrema direita?? Minha nossa. estão a ver!? é cada uma!!! que exagero! fazes bem: Strauss escreve muito bem 🙂

    ó Nuno, até parece que Hobsbawn descobriu ou inventou a roda. Já se fala sobre este assunto há muito tempo. ele, Hobsbawn, foi um dos últimos a falar sobre isto. nada de particularmente extraordinário ou sagaz. enfim…o rato pariu uma montanha…ou vice versa

    cumps

  15. ezequiel diz:

    outra coisa: a relação desemprego-radicalização não é linear nem mono-causal. o determinismo epistemológico marxista…já faz parte da lista de curiosidades histórico-filosóficas. é muito relevante, mas não pode ser o único pilar da coisa. O Vlaams Blok, por exemplo, ganha mais poder nas zonas onde há MENOS desemprego. O medo de perder o emprego é um factor relevante, sem dúvida. Enfim, coisa complexa. (mas, o desemprego é pertinente, sem dúvida) Hobsbawn tem razão, em parte. (mencionei isto no post ironia: especulação)

    cumps,

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