Círculo de prosa: Isto não existe

No Verão passado, ele disse-me que ia a Fátima a pé. Coitadinho dele, pensava eu, enquanto lia uns livros libertinos (Mme Vailland raccontant sa drôle de vie auprès de son cher Roger) e bebia uns Borgonhas muito potáveis na minha cura anual nas margens do Sena. Voltado a Lisboa, achei-o mais gordo: que a peregrinação era muito bem servida, Esporão em cada pousada, e arrozinhos de favas queirosianos un peu partout (durante um momento, pensei em aderir – e só a minha fidelidade ao velho e experimentado Endovélico me impediu de dar o derradeiro e fatal passo). Adiante: agora era outra vez a caça que o tentava: um primo emprestou-lhe o equipamento e aí foi ele entre muitos, carradas de muitos, todos a cavalo atrás de uma única raposa. A raposa foi devidamente acaçada: e antes que o deixassem almoçar à vontade (estávamos na estação estival, era Alentejo, e comia-se e bebia-se javardamente), ainda houve tempo para lhe cagarem a cara com as entranhas da pobre da raposa, a título de iniciação, e de cortarem uma pata à dita cuja, que desde essa altura ele guarda no Indesit lá de casa. Problema: a patroa está farta da p. da pata – que se um dia faltasse a corrente, havia de cheirar muito mal – e intimou-o a dar-lhe descaminho. Ele que sim, que sim, e encontrou ao lado do sítio onde trabalha (e eu também) o ateliê do último taxidermista de Lisboa, Mussolini Fajardo de seu nome. “-Não é fantástico?”, perguntou-me ele, “-Nã”, respondi-lhe eu, “Desidério Murcho parece-me muito mais expressivo”.

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SEXTA | António Figueira
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