Do musseque para Manhattan


Quando estive em Luanda há uns meses, não deixei de me sentir esmagado, como qualquer visitante, pela miséria opressiva que domina as grandes extensões de musseques, mares de barracas derramando sem cessar pedintes e negociantes de lixo para as ruas mobiladas com luxuosos jipes e restaurantes onde se bebe champagne como se fosse 7UP. Lembro-me de pensar que talvez só a miragem da ascensão social, materializada em milhares de pequenos, ínfimos negócios, florescendo literalmente debaixo de cada pedra, poderia anestesiar uma população sujeita a tão chocantes desigualdades, adiando uma explosão de consequências impensáveis.
Por estranho que pareça, esta recordação faz-me agora pensar na nação mais poderosa do mundo. Que os EUA mantenham um fosso entre ricos e pobres ainda maior que o nosso, parece coisa desculpável, pois de imediato vem à mente a mítica mobilidade social ali reinante. Certo? Não; errado.
Já em 2005, a London School of Economics tratou de estilhaçar o mito, com um estudo em que se comparava a mobilidade social intergeracional britânica com a de outros países ocidentais, incluindo os EUA. Conclusões surpreendentes: «A careful comparison reveals that the USA and Britain are at the bottom with the lowest social mobility. Norway has the greatest social mobility, followed by Denmark, Sweden and Finland. Germany is around the middle of the two extremes, and Canada was found to be much more mobile than the UK.»
É mesmo pena não terem incluído Portugal. Alguém conhece estudo similar aplicado à nossa realidade?

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

15 Responses to Do musseque para Manhattan

  1. Pingback: cinco dias » Obama e a América negra

Os comentários estão fechados.