Dicionário de futebol

A de “abstracção”, forma vulgar de obstrução, prevista e punida no artigo X das leis do Association (quem abstrai obstrui); B de “bola” (redonda como a Terra e são onze de cada lado, toda a gente se engana e ninguém é perfeito, chuva em Novembro e Natal em Dezembro, etc.); C de “caixinha de surpresas”, “carregador de pianos”, “caudal de jogo”… (quereis mais?); D de “desporto-rei”, claro, the beautiful game, so they say, mas também de “dizer que sim à bola” ou, pelo contrário, de “desperdiçar o ensejo” (qualquer que este tenha sido); E de “entrosamento” e de “escalpelizar”, as “entradas por trás”, as “entradas de supetão” (que só existem no Porto) & as “entradas viris mas não maldosas” (que nem sequer existem); F de “fio de jogo” (the plot of the game, eis aqui uma temática que nos levaria longe: sendo o futebol uma imitação da vida, terá ele um objectivo?) G de game over (no futebol virtual com que eu sonho); o H e o I não existem; J de “jornada de propaganda da modalidade”, de “jogar de trás para a frente”, “rente à relva”, “nos espaços vazios”, de jogar no raio-que-o-parta; L de “leitura de jogo” (a única permitida aos analfabetos televisivos); M de “miolo do terreno” e da grotesca “mística” benfiquista (que por sua vez remete para o C de “catedral” e para o E de “Eusébio, o mito do novo…”); P de “pertinácia”, de “pai da criança”, de “peitudo”, de “pé canhão”, de “pé que está mais à mão”; Q de “quem não marca, sofre”; R de “redondinha”, de “rodriguinho” e dos “relatos” radiofónicos*; S de “sal do jogo” e de “selo de golo”; T de “tomba-gigantes”, V de “véu da noiva” e acabou.

* Foi na corrente alterosa dos relatos dominicais que eu busquei as pepitas gordas com que compus o meu dicionário de lugares-comuns futebolísticos – e que bem eles se prestaram à função! Quanto mais eu oiço falar, mais me convenço que o silêncio é de oiro; quanto mais leio o que se escreve, mais os clássicos cultivo e escrevo só para mim: uma disse (num livro que ganhou um prémio) que “a manhã acordou cinzenta”, e eu não percebi o que isso era, ou se calhar não quis perceber: acordo eu, acordas tu, mas a manhã não, a manhã não acorda, a manhã nasce, ou para todos ou para nenhuns, porque às vezes até pode não nascer, questão de eclipses, de fusos, ou de sei lá o quê, mas acordar é que não acorda nunca, a menos que não seja manhã, a menos que seja poesia, mas então se for poesia que seja decente, que seja “acordada” e não repita o que é óbvio, o que já se sabe, o que não vale a pena dizer mais vez nenhuma, tipo “a manhã acordou cinzenta” (e porque não verde às riscas como o meu Sporting?, porque a baixa portuense também já “acordou azul-e-branca”, assim disse um radialista).

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

7 Responses to Dicionário de futebol

  1. Apelo diz:

    Peço desculpa pelo tempo de antena. Foi-lhes deixado o desafio de colaboração de uma causa aqui. Provavelmente não deram conta. É uma causa de todos e agradecem-se todos os contributos.

  2. cristã diz:

    e não há quem Intercepte? nem na Hora H?

  3. xatoo diz:

    acabou?
    ainda falta o X de Xiiiii! ia entrando

  4. m&m diz:

    prognósticos só no fim do jogo. Futebol é isto mesmo.

  5. ivan diz:

    Jogador com H grande.

  6. Algarviu diz:

    Elogio fúnebre: “Fulano era um homem não com um mas com dois agás grandes!”

    E atenção às falsas erudições: o autor de “com o pé que está mais à mão” é Alves dos Santos e não Gabriel Alves.

  7. Bolas. Não gosto de bola.
    Gosto de Ginástica de Alta Competição. Aí sou mesmo Bi! É feminina&Masculina.
    Y o meu ídolo não é o CR ( q tb gosto muito) mas o Hiroyuki Tomita. Sim. Esse, o rapaz que se estatelou do alto das Argolas. Sim. Fartei-me de chorar, novamente, no sáb. à noite a ver a repetição das provas. Y não me envergonho! Tal qual como os gajos que se babam&ranham pelos reveses da bola- dentro ou fora da baliza.

Os comentários estão fechados.