Conversa da treta (2)


Há uns dias, deixei por aqui um arrazoado sobre o que podemos e devemos exigir aos media sérios numa sociedade democrática. Concluindo que eles não serão por certo o palco onde as grandes decisões são formadas mas sim uma plataforma indispensável onde as populações (e os votantes) podem tomar decisões informadas e racionais. Por exemplo, um jornal (com a possível excepção do “Crime”) deve tentar ser mais do que um papel com umas letras e algumas imagens. Deve instituir e manter com os seus leitores um contrato de “serviços mínimos”, garantindo-lhes que anda por ali quem preste atenção ao que se publica. E não é o facto de ser gratuito que serve para o isentar de tal obrigação; se calhar, dado atingir muitos leitores sem outra fonte noticiosa regular, antes pelo contrário.
Não arrebanhei estas evidências a propósito da ERC. Julgo que a auto-regulação e a lei deveriam bastar para manter tudo nos eixos, sem vigilantes/justiceiros a rondar as redacções e os estúdios. Não. Lembrei-me disto depois de ler algumas das crónicas que o actor José Pedro Gomes escreve quinzenalmente no semanário “Sexta”, para mim o melhor dos nossos jornais gratuitos.
Trata-se de um espaço que tenta com denodo provar que a ignorância pode ser um ponto de vista. Que as ideias feitas têm sempre razão. Que tudo o que se pode ouvir numa mesa de café tem direito a ver-se passado à página impressa. Ali, não existe qualquer espécie de espírito crítico, reduzindo-se a prosa a uma câmara de ressonância do diz-que-disse, do toda-a-gente-sabe, do mínimo denominador comum da opinião pública.
A justiça só funciona para os poderosos; o governo anda sempre lixar-nos; só não houve incêndios porque já nada de combustível resta; os emigrantes fazem o que querem e não são expulsos; ninguém trancafia os bandidos; estes estão cada vez mais protegidos pela Lei; Portugal não tem mesmo remédio. E por aí afora, num festival sem fim.
Há ainda as imprecisões. O nosso homem manipula números, valores, informações, com a graciosidade de um malabarista maneta. Aqui, a procissão de bizarrias desafia a imaginação: o «Governo vai dar 30 milhões ao Oeste» à laia de compensação pela novela da Ota; «150 das 300 e poucas» faculdades de engenharia nem sequer ensinam Matemática; houve «uma média de 81 incêndios por dia» (a média de 2008 anda sim pelos 40, incluindo uma esmagadora maioria de “fogachos”); «há uma média de dois mortos por semana na construção civil» (errado). Estes são apenas exemplos das crónicas mais recentes. A bem da verdade, pouco custa verificar este tipo de dados. E nem sequer na blogosfera, povoada sobretudo por escribas amadores, campeia tamanho divórcio da realidade.
Dar à luz informações pouco rigorosas. Confirmar ideias feitas e preconceitos. Não é para isto que um jornal deveria servir; mesmo que sob a capa da opinião subjectiva. A única coisa que conseguiremos assim é continuar a ouvir na rua coisas como «claro que o Pinto da Costa se safou só porque tem poder», mas agora rematadas com um sonoro: «é verdade, pois. Li no jornal!»

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