Coisas que nascem nos posts (2)

Para me consolar pelo tempo que gasto com isto dos blogues, uso várias estratégias. Uma delas é convencer-me de que alguns dos vestígios que vou espalhando pelas esquinas da blogosfera até podem ter préstimo para outros fins, menos perecíveis. Assim, se um dia acabar mesmo a colecção de contos que tenho em mente, ela vai por certo anexar alguns destes fragmentos. Refeitos, justapostos, por vezes estendidos ou comprimidos. O que se segue é disso exemplo. Cosi, ajudado pela débil invenção de um tema geral, três posts que deixei, salvo erro, em três blogues diferentes. O resultado pode não ser grande coisa; mas é um bom álibi para estar ainda por aqui.

Mnemosfera


Tempo – Li isto há minutos num romance esplêndido: «nunca possuí qualquer relógio, de parede ou despertador e muito menos de pulso. Os relógios sempre me deram vontade de rir, coisa basicamente mentirosa, talvez porque sempre resisti ao poder do tempo graças a um impulso interior que não entendo muito bem, sempre me fechei à chamada actualidade, na esperança, penso eu hoje, disse Austerlitz, de que o tempo não passe, não seja passado, de poder ir atrás dele, de encontrar tudo à chegada como dantes, ou, melhor dizendo, de descobrir que todos os momentos do tempo existiram simultaneamente».
Recordo-me agora de que nos meus dias de juventude também abominava os relógios. Melhor, ignorava-os, com uma distância que anulava até a possibilidade de um desprezo casual. Tinha na mesinha de cabeceira uma gaveta cheia de destroços sem pilha, sem corda, sem caminho de regresso à rotina do tiquetaque. Lá ia perdendo comboios, aviões até, com a alegria pateta de quem julga que todos os tributos são devidos aos deuses da juventude. Não resistia ao “poder do tempo”; fazia de conta que ele não me dizia respeito, que navegava bem acima das suas correntes escuras. A tal “actualidade” era apenas um prólogo entediante para as maravilhas que o futuro por certo me reservava. Não me afligia a passagem do tempo, só deplorava a sua morosidade.
Às tantas, sem transição clara que me tenha ficado na memória, dei por mim a gostar de relógios. A gostar, não; a adorá-los. Lia intermináveis artigos de relojoaria, gastava dias face a complicados esquemas de balanços, turbilhões, escapes. Depois, comecei a comprar anacrónicas e caríssimas máquinas suíças de funcionamento temperamental e complicações sem fim. Claro que só sentia cada um destes relógios como pertencendo ao meu pulso depois de conhecer intimamente o papel de todas as engrenagens no seu movimento; a beleza escondida de cada roda dentada, a ponderosa lentidão do rotor em platina, a necessidade absoluta do mais ínfimo rubi. Não sei se uma mania assim já mereceu honras de nome próprio, de um pedestal na taxinomia labiríntica das perturbações mentais, mas está mais que na hora: andam por aí muitos como eu.
Posso não me lembrar da queda nesta peculiar doença. Mas sei bem que mudanças na minha vida a acompanharam. E consigo ler nas letras garrafais o óbvio: a minha obsessão com relógios mecânicos revela um desejo claro de dominar o tempo. Uma ânsia de ter coisas a dizer, opções a fazer sobre ele. Não escolhi um tempo sobre-humano e infalível, daqueles que continuarão por certo a marchar indiferentes bem depois da minha última badalada; esse é o domínio dos relógios digitais, dos monstros a césio, dos leviatãs que regem observações astronómicas ou as engrenagens celestes do sistema GPS. Escolhi um tempo artesanal, entendível, imperfeito, que exige que eu não me esqueça de lhe dar corda, sob pena de ver todo o universo estacar, entre chiadeiras mil e reclamações das pessoas sérias, que têm onde ir. Um tempo que pode ser preciso em si mas nem se sabe manter síncrono com o resto do universo: hoje, é raro acertar com precisão um dos meus brinquedos suíços.
Olho através do fundo de safira do meu cronómetro e vejo mais do que rodas gravadas, em trânsitos tão bem coreografados. Surpreendo ali, afinal, a prova do evidente embuste que é o tempo: como é que algo tão humano, embora admirável, pode alguma vez vir a sobrepor-se aos meus desejos ou à vontade de sobrevivência da minha carne?


Espaço – Na semana passada, cedendo já não sei a que débil desculpa, dei-me ao trabalho de regressar a um local onde há muitos anos fui feliz. Voltei à casa da minha infância.
Forcei o portão das traseiras e espreitei o jardim derrelicto; arrastei-me rua acima, rua abaixo, olhando por cima do ombro em busca de coragem para tocar à campainha. Por fim, lá importunei os velhinhos que agora ali moram: contei-lhes uma pequena fábula de regressos impossíveis a dias mais jovens e pedi-lhes para me deixarem subir. Depois, hesitei por corredores onde antes corria, afaguei maçanetas de que antes conhecia o sítio mesmo às escuras. Procurei o salão do piano e dei com uma sala de jantar bafienta e sombria. Perscrutei ao longe a entrada para o sótão que ainda hoje povoa de pânicos escuros os meus sonhos.
Os donos da casa suportaram-me por um período estranhamente longo, mirando o intruso com uma curiosidade que vagueava algures entre a desconfiança e a ternura (nada disto está na minha natureza: encomendar-me à caridade alheia, por motivos fúteis e sentimentalões, eis bizarria que nunca me tinha adivinhado).
E com que bofetada terrível, insuportável, trágica, me agrediu esta visita ao passado? Nada de nada. A epifania agendada não chegou. O ritmo do meu coração apenas se abrandou a aguardar o choque; não tomou o freio nos dentes, nem sequer tropeçou de espanto. A casa não passava de um cenário obsoleto deixado para trás por uma peça de escasso sucesso, cujo enredo agora me parece indiferente, de tão longínquo. Como uma casca, vazia de tudo o que antes lhe dera significado e vida. O meu passado já não mora ali.
Aliás, vendo agora bem as coisas, nem sei bem do que estava à espera; um regresso às minhas retinas da luz intensa e mágica que tudo transfigura quando vemos ou entendemos as coisas pela primeira vez? Ou apenas certificar-me de que o passado ainda existe algures, à espera de ser revivido, disponível para redimir as angústias de pacotilha das nossas crises de meia idade?
Que triste figura a minha. Um fantasma vivo, criatura patética assombrando o palco das suas próprias recordações esfumadas. Criatura que regressa ao seu molde apenas para o descobrir frio e inerte (veio-me à ideia um símile tão elegante, a propósito de salmões e rios enganados… mas não o consegui fixar).
Já não sei quem disse que nunca devemos voltar a onde já fomos felizes. Só depois desta estúpida excursão aos cenários da minha felicidade juvenil é que percebi porquê: tal tarefa é menos que inútil, é de todo impossível.
A impossibilidade do retorno a um dado local não decorre de um busílis metafísico; trata-se apenas de corriqueira ciência, de astronomia elementar. Antes de mais, não esqueçamos a verdadeira natureza da nossa posição neste universo: agarramo-nos a custo a um planeta que gira desembestado sobre si mesmo; orbitamos uma estrela que, também ela, se despenha em correrias que desafiam a imaginação. E toda a nossa Via Láctea é apenas uma gota num rio de galáxias obedecendo ao chamamento do Grande Atractor, presença magnífica e opaca de dimensões inimagináveis, leviatã negro que coreografa todos os movimentos nos nossos céus.
600 quilómetros por segundo. Eis a velocidade a que a Terra cai pelo universo afora, medida face à radiação cósmica de fundo, eco ruidoso do início das coisas. Eis a velocidade a que o passado se afasta de nós.
É por isto que aquele local mágico, à sombra de um coreto ferrugento, abrigo do beijo inicial, teima em fugir-me. E assim se perderam para sempre os passos que dei na casa da minha juventude. Os nossos pretéritos não estão onde os deixámos. A cada dia que passa, mais 52 milhões de quilómetros nos separam deles.
Os resultados são bem conhecidos. O coração é topógrafo preciso e não se deixa enganar pela espuma das aparências. Por isso, somos imunes a todos os emocionados regressos que ensaiamos. Por isso, as bússolas dos afectos teimam em apontar para um Norte outro, que nunca coincide com as coordenadas rigorosas que confiámos à memória. Aí, apenas encontramos adereços, cascas, detritos sem préstimo: o essencial foi-se embora.
Talvez os nossos transes mais intensos fiquem mesmo, como fósseis intangíveis, para sempre a assinalar pontos bem definidos no espaço. Mas nada os prende à gravidade ou à cinemática deste nosso planeta. Cada genius loci que criamos só nos acompanha em imaginação; na realidade, todos se perdem como náufragos celestes, condenados a vogar pelo frio absoluto entre estrelas. Legiões de débeis fantasmas que a Terra deixa atrás de si, como a cabeleira de um cometa a esvair-se em recordações, saudades, melancolias.


Memória – Tenho acordado muitas vezes com o travo de um novo tipo de sonhos ainda a escorrer-me do palato. Um travo a um tempo familiar e estranho. Sonho nessas noites episódios ou espaços da minha infância, só que em versões corrigidas e ampliadas: a quinta da família passou a incluir labirintos de divisões ocultas, prenhes de mistérios e decorações exóticas; a cidade onde nasci surge transfigurada numa metrópole aventurosa, povoada por entes magníficos, vistas sem par, vielas de sombras e enigma. Os meus amigos dos verdes anos multiplicaram-se, ganharam qualidades mil. E eu – por fim eu, protagonista inevitável – reino supremo sobre enredos que nunca me aconteceram no mundo desperto.
Reparem que há por ali uma aderência débil mas tenaz à realidade: tudo começa, tudo se desenha, tudo cresce com raízes em pessoas e sítios de que me lembro bem; mas com o brilho technicolor que só as infâncias dos outros têm, tumultuosas, mágicas e belas.
Que se passa? Teorizo que a parte automática e subterrânea da minha mente, a maquinaria que trabalha em silêncio para me acolchoar a existência, já percebeu que a minha vida não vai, afinal, ter tempo para feitos dignos de registo. Aos quarenta e tal anos, o que me podia acontecer de magnífico já por certo aconteceu. E foi tão pouco. Tão pouco para encher todos os escaninhos que a memória humana nos oferece para embalsamar os dias, todos os dias. Assim, as minhas reminiscências estão a ser falsificadas e expandidas aos poucos. A ficção gentil toma o lugar da realidade desolada.
Começando pelos sonhos, cada vez mais intensos, mais vivazes, mais verosímeis — tudo aquilo que falta às minhas horas de vigília. Sou como o pelintra esperançoso quando por fim se conforma com a impossibilidade de alguma vez vir a comprar a sua casa de sonho: remobila, redecora, refaz o seu pardieiro minúsculo, criando por todo o lado novos nichos, para dar a ilusão de espaços mais felizes e amplos.
A minha infância está assim em obras. Por enquanto só em sonhos, por enquanto só a minha infância. Antevejo o dia em que não conseguirei distinguir a memória confiável da doce impostura. E o pior é que nem receio tal dia. Sofro a sua ausência.

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2 Responses to Coisas que nascem nos posts (2)

  1. ezequiel diz:

    adeus a todos

    gostei de estar por aqui. dias antes de partir (fisicamente) para um outro destino…abandono definitivamente a blogosfera. duas partidas, em poucos dias. há coisas muito mais interessantes para ler nos livros e para aprender nas conversas face-a-face.

    ando há + ou – 8 anos nestas andanças. visitei blogs sem conta. mas foi este que me acirrou a curiosidade e a vontade de participar nesta ongoing conversation that we call humanity.

    tudo de bom, como dizem os brazucas.

  2. Luis Moreira diz:

    ezequiel, adeus a todos? Até amanhã ! Mas o que é que deu ao pessoal? É outono não há problema nenhum,as pessoas ficam como a natureza,mais tristes, mais prontas a abandonar não se sabe bem o quê! ezequiel,deixe-se disso,homem, apanhe sol, ali na Caparica,o sol é o melhor remédio para a depressão e a tristeza.Até amanhã !Abraço

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