os imponderáveis da transição para a democracia *

Piotr Sztompka, eminente sociólogo Polaco foi, com Z Bauman (e alguns outros), um dos mais perspicazes interpretes das mudanças tumultuosas que se fizeram sentir na Europa de Leste.Enquanto Bauman, referindo-se à experiência Polaca, falava do estado “liminal” (entre a dissolução e a agregação de novas entidades e práticas) que sucedeu o estrondoso colapso do nefasto sistema comunista, Sztompka falava dos “imponderáveis” que seriam os mais resilientes obstáculos à tão desejada democratização. Num paper que não consigo obter na net, intitulado * “The Intangibles and Imponderables of the Transition to Democracy”, publicado num jornal cujo titulo também não me recordo, o sociólogo Polaco escreveu sobre “códigos culturais” profundos, chegando até a invocar o inconsciente cultural como pano de fundo da sua teoria. Um destes códigos imponderáveis, que havia sido legado pelo comunismo, foi a profunda desconfiança com que os povos do leste Europeu viam o estado e toda a classe política, um legado problemático para todos os que pretendiam promover a democratização através das acções do estado. Sztompka, com a astúcia analítica que lhe é familiar, distinguiu as reformas institucionais das mudanças culturais e alertou para a discrepância temporal entre estes dois processos de mudança. As instituições podem ser facilmente reconfiguradas de acordo com um determinado plano de reformas ou directrizes. Todavia, as culturas, os inconscientes culturais, os blue prints da acção social, demoram muito mais tempo  a mudar. Simples mas sábias, as palavras de Sztompka, pensei eu.

Hoje, ao olhar para o meu país, penso com os meus botões: será que a interpretação de Sztompka  aplica-se a Portugal?

PS: este post foi inspirado pela proposta de casamento gay que foi derrotada no Parlamento Nacional.

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