clarificação

O Nuno Castro deixou-me esta interpelação aqui.

“agora, onde é que na histoire diz que a opressão confeccional (confessional) tem que ver com a ofuscação explícita do tema da sexualidade? E a confissão a que eu me referia não é a confissão-dispositivo disseminado mas sim a confissão entidade jurídica da Idade Média. Em que medida a sexualidade é ofuscada quando ela nem sequer existe? quando são esses mesmos discursos que referes (séc. XIX) que a produzem?”

Creio que nestas situações o melhor a fazer é citar o próprio Foucault.

“Consider the evolution of the Catholic pastoral and the sacrament of penance after the Council of Trent. Little by little, the nakedness of the questions formulated by the confession manuals of the Middle Ages, and a good number of those still in use in the seventeenth century, was VEILED. One avoided entering into that degree of detail which some authors, such as Sanchez or Tamburini, had for a long time believed indispensable for the confession to be complete….Discretion was advised, with increasing emphasis. The greatest RESERVE was counseled when dealing with sins against purity…” (History of Sexuality, p 18-19)

Como poderemos ler aqui, não é a scientia sexualis como regime discursivo que “produz” a sexualidade pela primeira vez. Ou seja, a sexualidade sempre existiu. O que me interessa aqui é a sobreposição quase paradoxal de regimes discursivos distintos em ambas as épocas: ofusca-se e reprime-se a sexualidade enquanto se incita a produção discursiva sobre ela. No período medieval, a incitação discursiva é sub-repticiamente organizada e assume a forma de interrogações discretas e privadas nas quais o sujeito é pouco mais do que um mero observador da normatividade que o define e pune. A relação é dedutiva. O confessional moderno é diverso, mas preserva este atributo de camouflage do seu antecessor histórico.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

6 Responses to clarificação

Os comentários estão fechados.