Do ruído à surdez

Não adianta mesmo pedir aos vizinhos que façam menos barulho: a única coisa que conseguimos é ser acusados de melofobia. Mas tentar deixa-nos sempre aquela satisfação manhosa de pelo menos não termos ficado calados.
A propósito da converseta sobre bois de piranha, perguntou um comentador «em que medida a alteração de dois ou três artigos do código civil diminui a produtividade da nação e impede a economia nacional e mundial de arribar?» Era, creio, uma questão retórica: sou pela discussão e alteração da lei. Mas tem resposta: ruído e realidade são duas coisas diferentes. O primeiro pode impedir-nos de prestar atenção devida à segunda; mas a sua modulação não basta para modificar o mundo, infelizmente. E o post era tão simplesmente sobre o uso táctico que alguns fazem destas questões para criar cortinas de ruído, canalizando atenções e energias para onde lhes interessa.
Confirmando esse ponto de vista, logo surgiu o Daniel Oliveira, inquirindo se «não se conseguem discutir várias coisas ao mesmo tempo». Isto acompanhado pelo acervo de símiles do costume: o sufragismo, a abolição da escravatura, o voto dos negros americanos (conquista localizada, segundo o Daniel, no início da guerra do Vietname, quando na realidade a 15ª emenda da Constituição americana já reconhecera esse direito em 1870, tendo a Voting Rights Act apenas autorizado o governo federal a obrigar os estados recalcitrantes a aceitar e contar os votos dos negros).
Como antes, estas comparações parecem-se deslocadas (e contraproducentes), sobretudo no ponto central: aquelas nunca foram questões ciclicamente ventiladas e trazidas à superfície do debate público com intuitos políticos, por partidos com as suas agendas próprias, que só por acaso coincidirão com as dos grupos afectados pela discriminação. Naqueles tempos, havia homens e mulheres a morrer, havia as leis “Jim Crow”, havia todo um mundo novo a bater à nossa porta. Hoje, há uma injustiça a corrigir, não milhões impedidos de usufruir dos mais básicos direitos da cidadania: a liberdade, o voto, ser tratado como ser humano.
Afirma o Daniel a vontade de «ter várias lutas ao mesmo tempo». Por mim, pode dispersar-se pelas causas que quiser, manter sempre meia dúzia de cartazes na mala, que em nada me incomoda. O que me irrita um pouco é saber bem que há quem orquestre, do lado dos assessores de Sócrates, os botões de volume destas causas. E que há quem aceite tais gambitos, sabendo que só tem a ganhar em servir de sparring partner do governo. O Bloco tem uma relação simbiótica com estas manobras: cavalgando lutas cívicas amplifica a sua voz, satisfaz e alarga a sua clientela eleitoral própria e até se demarca do PCP, deixando para este o odioso e arriscado das greves e das manifestações.
Por fim, o Daniel tratou de quantificar as minhas preocupações, contabilizando os quatro posts com mais de duas ou três linhas que tinha escrito aqui desde o início do mês. Vou resistir à tentação óbvia de usar o patusco substantivo “controleiro”, até porque me parece que tal implica um mínimo de competência – e nada escrevi neste mês sobre a ERC (praga que se me afigura, pelo seu alastramento, merecer os mais sonoros alarmes). Ao que parece, ter-me-ei esquecido da Economia. Ó diabo.
Podia pedir ao Daniel para recuar mais uns dias na sua exegese; podia dizer-lhe que até tenho gasto algum tempo a comentar posts do “inimigo”, não vá quem lê aquela malta ficar a pensar que é incontroverso que a presente crise tenha afinal sido causada pela regulação; podia dizer-lhe que o João tem dado conta desse recado por aqui; podia até gabar-me de ter cá postado a melhor explicação simplificada da crise do subprime que já li. Mas prefiro embarcar no óbvio: não sinto a obrigação, ademais por não ser opinador profissional, de escrever umas “coisas” sobre tudo e mais um par de botas, incluindo temas fora do reduzido campo do meu know-how. O autodidactismo, a Wikipedia e a boa vontade só servem até certo ponto. Escrever para lá dessa fronteira é diferente de produzir opinião, tanto mais que a ignorância não é um ponto de vista. É apenas gerar ruído, quer seja num blogue, num jornal ou na TV. E ruído é mesmo o que não precisamos mais, nestes dias.

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