Le Pen e a questão da identidade

Le Pen e questão da identidade

O que se passou em França durante o processo eleitoral foi deveras extraordinário. O candidato da extrema-direita, Le Pen, conseguiu influenciar de forma decisiva a agenda política de toda a direita Francesa. Fê-la gravitar em torno da “sacrossanta” questão da identidade nacional. Sarkozy, o candidato da direita tradicional, seguiu-o submissamente. É provável que esta submissão embaraçosa do jovem Nicolau ás directrizes comunicativas impostas por Le Pen tenha sido motivada tanto pelo medo da deserção de alguns dos seus apoiantes para Le Pen como pela possibilidade de atrair potenciais desertores da extrema direita. Nem a insuspeita socialista Ségolene conseguiu escapar à força gravitacional da questão identitária. O nacionalismo politicamente correcto de Ségolene não é o nacionalismo xenófobo de Le Pen, é certo. Não obstante, esta rentrée da identidade na politica eleitoral foi o facto mais significante das eleições Francesas, independentemente dos resultados eleitorais.

A questão da identidade nacional é uma verdadeira caixa de Pandora. O que é a “identidade nacional”? Práticas sociais e tradições? Valores que são constituídos e praticados livremente no espaço público democrático? Somos aquilo que escolhemos ser ou aquilo que a história “diz” que somos? As duas coisas? Sim, provavelmente. O conceito de identidade nacional encerra uma tensão entre os significados que herdamos e aqueles que criamos. Esta tensão omnipresente faz parte do próprio conceito de identidade e da própria interpretação (Gadamer). Sem memoria não pode haver identidade. Sem liberdade, a identidade não passa de uma imposição e ninguém se identifica com aquilo que lhe é imposto. A tensão persiste, inevitavelmente.

O nacionalismo de Le Pen evoca o ideal do retorno às origens “impolutas” da identidade Francesa. A verdadeira pertença encontra-se num passado cristalino cuja reactualização é entendida como possível e desejável. É, portanto, um nacionalismo de pendor regressivo que tenta projectar para o presente algo que se perdeu no dilúvio imparável da modernidade: a sociedade homogénea, orgânica e hierarquizada, a ordem moral dos princípios absolutos e a memoria da grandeza imperial. Em suma, é a tentativa de restituir uma “essência” perdida. Esta obsessão nostálgica com a pureza de um passado perdido ou com um principio imaculado ao qual se permanece fiel, faz com que o nacionalismo das origens seja quase sempre dogmático e, por conseguinte, autoritário.

PS: Este pequeno texto foi escrito poucos dias depois das últimas eleições Francesas.

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