ironia : especulações

Obama propõe reinventar o estado “social”. As suas propostas não visam a instituição de um estado social à Europeia nem um regresso nostálgico ao passado Rooseveltiano, apesar do intuito ético-filosófico ser o mesmo: justiça social. Visam, pelo contrário, a criação de um estado social sustentável, com métodos de intervenção radicalmente inovadores. Ironicamente, a crise actual coloca-lhe nas mãos os instrumentos de que necessita para implementar este programa de mudança. É verdade que os instrumentos não estão em boas condições. Todavia, a capacidade de adaptação do sistema Americano não deve ser subestimada. Been there, done that! seria a metáfora histórica mais apropriada, julgo eu. O mito de que a intervenção ou a regulação é irracional ou indesejável foi aniquilado por Wall Street, no less.  O estigma da regulação será brevemente uma curiosidade arqueológica. Parece que até as estruturas hermenêuticas (Charles Taylor) estão a torcer pelo Obama!

A tecnologia desempenhará um papel crucial na criação e manutenção deste “novo” estado social. O que não deixa de ser doubly ironic: a crise no sistema financeiro dos EUA fará com que a aplicação de capitais acumulados (ex. subprime) seja considerada menos importante do que a gestação de valor no domínio da inovação tecnológica e cientifica. Precisamente  as policy  areas privilegiadas por Obama e os seus economistas!

É sabido que se aproximam tempos difíceis, para todos. A crise é sistémica. Um exemplo: A China dispõe de cerca de (julgo eu, corrijam-me se estiver errado) 1500 biliões de USD em reserva. Imaginem, por favor: Os EUA em recessão. As exportações Chinesas para os EUA diminuem radicalmente. Repito: radicalmente. (Nos EUA, a estabilidade orçamental será um imperativo Kantiano, ou quase. São os efeitos transversais da presente crise). Continuemos:  os últimos anos de crescimento económico na China geraram expectativas nunca sentidas. Get the picture?  De onde virá o capital para manter a malta satisfeita? Das reservas do estado, naturalmente. Terá a China outros mercados para onde exportar. Claro que sim. Quais? Qual é o poder de compra destes mercados alternativos? Pois.

Em algumas partes da  Europa proclama-se o fim da hegemonia Americana com uma satisfação reminescente  da ejaculação precoce (neste caso,o Johnny come quickly syndrome tem um John at the elm). Gray escreve um artigo para o Guardian onde afirma, com a dramatismo teatral e English miopia que lhe é peculiar, o fim do hegemonia Americana. Não explica. Limita-se a constatar um facto. Não percebe e nunca perceberá que Washington não é Roma e que nunca será Londres (sorry, but, hey, that’s a fact). Não compreende o império Americano. Nem sabe onde se encontra. (escreverei um post acerca das teses estapafúrdias e cómicas de Gray). Na Áustria, a extrema direita realiza um objectivo há muito pretendido. A declaração mais memorável de um dos líderes da nova vaga de nazis, dirigida ao seu eleitorado,  é a seguinte (parafraseando): ” Estes imbecis nem sequer conseguem resolver o problema do emprego!  Nós resolvemos este problema, não duvidem!” Seria bom lembrar que o desemprego já é bastante elevado na Europa.  Não duvido da determinação da extrema direita e não tenho qualquer dúvida que o autoritarismo Prussiano consegue nulificar o poder dos sindicados e dos esquerdistas bem intencionados em poucas semanas. Não tenho a menor das dúvidas.  Na Flandres, o Vlams Blog conquista novos aderentes com cada dia que passa.  Na Suécia, well well. A França de Sarkozy, da Action Directe, das minorias recalcadas e de Napoleão  poderá vir a testemunhar a ascendência meteórica da FN, particularmente no sul. Tragicamente, Sarkozy poderá ser a grande vitima desta crise. Com o falhanço da direita neo-lib-conservadora, a extrema direita terá uma oportunidade de ouro para emular os seus confréres Austríacos. Não duvidem: o falhanço de Sarkozy será a grande oportunidade da extrema direita Francesa. A esquerda Francesa não se entende e não se vislumbra um consenso a médio prazo. Nem quero pensar em tal coisa. (sim, refiro-me à possibilidade de uma guerra civil de baixa intensidade) O potencial impacto destas mudanças no projecto Europeu é deveras assustador. Repito: assustador.

O que me dizem?

Cenário provável?

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