A homenagem

No tempo em que a poesia detinha ainda o prestígio a que deveria sempre ter direito, o velho poeta C. aguardava o seu comboio numa pequena estação das Beiras perdida entre penhascos, e sem ninguém por perto. O poeta não tinha graça: tinha caspa, dedos gordos e era desagradável no trato, irritadiço; enquanto esperava, irritava-se ainda mais, pensava na sua próstata, nas suas dívidas, à tous ses petits et gros enmerdements. Nisto ouve-se um tropel de cavalos e do nada surge um pequeno descapotável, guiado pela jovem e bela condessa de O.. Ela salta do seu coupé, dirige-se ao velho poeta que nunca tinha visto antes, mas que reconhece de um daguerreótipo que antes vira, inclina-se perante ele e beija-lhe a mão (os dedos gordos), dizendo-lhe: “-Condessa que sou, não me preocupo com o que pense do meu gesto, mas fique sabendo que não é a si que eu presto homenagem, é à sua obra”. Estamos a muitas léguas da civilização, numa paisagem quase desértica, agora sob um pôr-de-sol de fogo; a Condessa de O. parte tão de súbito quanto tinha chegado e a sua imagem depressa desaparece no horizonte; e o comboio continua sem chegar. Enquanto não chegava, o velho poeta (lembram-se do “Vento nas árvores”?) juntava mais uma às suas pequenas e grandes irritações e dizia para consigo que aquela Condessa, de quem nunca ouvira falar, era a própria morte, a convidá-lo para o Panteão dos Poetas.

(Une histoire du Petit Poulou, adaptação livre)

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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