Conversa da treta (1)

Por mais promissores e entusiasmantes que nos pareçam as possibilidades das novas tecnologias, começando pelas que possibilitam a disseminação deste texto, convém não esquecer algumas verdades básicas. Com esta, bem resumida por Imma Tubella: «tão importante como a História é a história que a comunidade consegue explicar aos seus membros, a história de mitos e crenças criadas como um elemento de coesão». Isto que acarreta uma responsabilidade crucial para os dispositivos de comunicação, não só na disseminação de informação útil e necessária à nossa representação mental do mundo e da sociedade, mas também como elemento aglutinador desta, ao gerar «um discurso comum e uma representação colectiva».
Claro está que se trata de um processo contínuo e em perene evolução, usando a cada momento a comunicação entre os agentes sociais como “cimento” da sua eficácia estrutural. Fá-lo criando toda uma teia de ligações, responsabilidades e laços de poder entre cidadãos, governos e instituições várias, muitas das quais ligadas ao Estado. Uma teia que está hoje no centro da vida nas sociedades democráticas – por via de uma esfera pública informada e ainda relativamente independente – e, de forma homóloga, nas ditaduras, através de dispositivos de propaganda, censura e manipulação dos media.
Quando o conceito de Habermas se viu difundido, a ideia de “Esfera Pública” tornou-se numa ferramenta quase universalmente usada para interpelar a relação que os públicos mantém com o poder, os media e as instâncias de decisão. Aquela será «o reino da nossa vida social onde algo parecido com a opinião pública se pode formar. Todos os cidadãos têm acesso garantido. Uma parte da esfera pública nasce de cada vez que indivíduos privados se juntam para formar um corpo público. […] os cidadãos formam um corpo público quando conferenciam entre eles sem restrições […] sobre assuntos de interesse geral. […] Hoje, jornais e revistas, rádio e televisão são os media da esfera pública.» As palavras de Habermas não podiam ser mais claras: os media surgem como um plano de comunicação biunívoca entre cidadãos e entre estes e os decisores. Eles não serão por certo o palco onde as grandes decisões das sociedades democráticas são formadas mas sim uma plataforma indispensável onde as populações (e os votantes) podem tomar decisões informadas e racionais. Para garantir que a participação cívica se fortalece, que o poder não se divorcia irremediavelmente dos governados, torna-se indispensável que os media desempenhem um certo número de funções de forma equilibrada, constante e clara: disseminação de informação indispensável à criação de opiniões fiáveis, controlo e denúncia de abusos, ocasião para a advocacia de causas, etc. Isto se não queremos acordar num mundo onde as massas se limitam a votar ocasionalmente nos melhores manipuladores, após o que se desligam dos assuntos da governação até às próximas eleições.

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