Aos poucos, o João Miranda vai lá

As grandes crises têm destas coisas: fazem com que uns quantos se superem, descobrindo em si forças insuspeitas. O João Miranda, por exemplo, ainda há uns tempos jurava pela beleza transparentemente cristalina do Deus Mercado: «Como é evidente, num mercado a sério, quem compra produtos financeiros acreditando falsamente que esses produtos têm baixo risco merece ir à falência.» No estranho mundo da Mirandéria, a culpa é de quem acredita «falsamente», pois é inadmissível que as tais falsidades pudessem medrar e propagar-se por entre os lindos roseirais do Mercado. Mesmo depois de o terem alertado para algumas imperfeições da natureza humana – que até podem, imagine-se, levar à ocultação de factos e à mentira – nunca ele hesitou no seu trilho, consabidamente o da Verdade Única: «A alegação de que existe assimetria de informação é irrelevante», continuava o nosso profeta a clamar no seu cantinho do deserto.
Nos dias que correm, enquanto o céu lhe cai no toutiço, as brechas alargam-se, permitindo a entrada em tropel de alguns fragmentos da odiada e suja realidade: de repente, o mundo acordou complexo e alberga hediondas irrelevâncias como a «assimetria de informação entre os diferentes agentes do sistema financeiro e a existência de taxas de juro variáveis impostas pelo Banco Central». Não é que a segunda parte da coisa faça lá muito sentido; mas aos poucos a migração para o mundo real está a dar-se. Caminha para a luz, João!

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