O sr. director devia ler o seu próprio jornal e aprender

Aquela estimável criatura, que dá pelo nome de José Manuel Fernandes, veio hoje afirmar, com solenidade, que a culpa da crise financeira mundial é do socialismo e de Roosevelt que pretendeu democratizar o acesso ao crédito. A responsabilidade do desastre não é da especulação financeira sem tino, mas de um presidente ligeiramente à esquerda que governou os EUA na primeira metade do século passado… Não há como um ex-maoista, reconvertido às delícias do império, de Bush e da guerra, para não ver um palmo à frente do nariz.

Aconselho o sr. eterno director do Público, que, tal como os gestores dos bancos falidos, deve ser aumentado apesar do jornal vender cada vez menos, a ler um artigo publicado no seu próprio diário, pode ser que aprenda qualquer coisa. Quero sublinhar esta passagem, previdente, do texto do José Vitor Malheiros: “Dizer que a crise do subprime foi provocada pela “democratização do
crédito” é não só falso como desonesto”.
Parecia que tinha olhado para o lado e topado o inefável Fernandes. Leiam o resto deste excelente artigo.

“Os pobres que foram pagando a sua casa, pagaram-na mais cara que os
ricos. E muitos perderam as prestações e a casa.
O subprime não surgiu devido a um fervor democrático ou um desejo
igualitarista por parte dos bancos e de outras instituições de crédito
de estender também aos mais pobres os benefícios do crédito de que
apenas os ricos e os remediados tinham beneficiado durante séculos.
O subprime surgiu porque um banqueiro um dia olhou para um gráfico da
população nos Estados Unidos e constatou que havia umas dezenas de
milhões de pessoas que os bancos não estavam a espremer – apesar de,
esporadicamente, estas pessoas terem uns dólares a mais no bolso e de
possuírem as mesmas aspirações e desejos dos outros seres humanos: uma
casa para morar, por exemplo.
A questão era: por que razão extorquir apenas o dinheiro dos mais
endinheirados? Porque não tentar sacar aqueles escassos dólares que se
amontoavam nos bolsos dos mais pobres? Porque não ordenhar também os
mais pobres (para usar uma expressão que os gestores apreciam, ainda
que usualmente em inglês, to milk the costumers)? Afinal, aqueles
dólares todos juntos representavam uma maquia apetecível.
Havia o pequeno problema de estes clientes poderem não conseguir
pagar, mas isso não era nada que uma taxa de juro mais elevada não
pudesse compensar. Bastava cobrar aos mais pobres um juro mais alto de
forma a obrigá-los a pagar, digamos, cinquenta por cento acima do que
se cobrava aos mais abastados (sim, acima). Para mais, havia sempre a
possibilidade de o banco retomar possessão da casa, caso a hipoteca
não fosse paga.
E assim se fez. É claro que este mercado (a eufemística expressão
inglesa subprime significa “não é bife do lombo”) teve os seus
problemas, revelando a Mortgage Bankers Association dos EUA, no final
de 2007, que se verificavam sete vezes mais execuções de hipotecas
neste segmento que nos restantes, mas o essencial foi conseguido: os
pobres estavam a ficar realmente mais pobres e os dólares que lhes
saíam dos bolsos estavam a entrar nos bolsos dos bancos. O segmento
subprime estava finalmente a ser explorado.
O problema foi que, como os bancos transaccionam estes empréstimos na
bolsa e esta revelou um enorme apetite pela avalanche de hipotecas
fresquinhas, os bancos entusiasmaram-se e começaram a emprestar a
juros cada vez mais altos a quem não tinha emprego nem dinheiro, para
comprar casas que não valiam nada. Como os bancos e os gestores eram
avaliados (pelas bolsas e pelos seus accionistas) pelos resultados
imediatos e não pelos efeitos de longo prazo, estas manobras foram uma
bênção para o sector financeiro durante uns anos: havia mais
“clientes”, mais “valor bolsista”. Mas o mercado imobiliário acabaria
por cair e a catástrofe adiada aconteceu, dando origem à bola de neve
que se conhece. A bomba acabou por estoirar no bolso do sistema
financeiro.
Dizer que a crise do subprime foi provocada pela “democratização do
crédito” é não só falso como desonesto. O poder estava e continua a
estar apenas de um dos lados da equação. Os pobres que conseguiram ir
pagando a sua casa pagaram-na mais cara que os ricos (mesmo os que
nunca falharam uma prestação) e muitos deles perderam simplesmente as
suas prestações para os bolsos de gestores e accionistas dos bancos –
e perderam as casas. Houve um robindosbosquismo ao contrário e nenhum
benefício para a economia. O facto de as coisas não terem resultado
para os bancos – ainda que tenha resultado para muitos dos vilões –
não faz deles as vítimas. E o facto de alguns indigentes terem tido
crédito não torna o episódio “democrático” – é apenas um sinal da
falta de escrúpulos das empresas envolvidas e da falta de controlos do
sistema financeiro. José Vitor Malheiros, Jornalista (jvm@nullpublico.pt)”

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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