os meninos à volta da fogueira

A publicação de um artigo do Rui Tavares no Público e a consequente “lamentação” de um consumidor ultrajado suscitou comentários muito interessantes. Destaco aqui o comentário do M. Abrantes, onde se afirma que é a “lógica da barricada ideológica” que afasta os cidadãos da política. Será a lógica da “barricada” contrária ao ethos democrático? Segundo a escola da democracia agonística, as barricadas ideológicas, as diferenças articuladas na esfera pública  são a matéria prima da política, a sua razão de ser e uma das suas condições primordiais. O pluralismo radical não pode, nem deve, ser posto sob o jugo de uma qualquer ética comunicativa transcendente que prometa uma conciliação explicita ou implícita de posições. Não nos podemos esquecer do seguinte. Não existe e nunca existiu na esfera pública (refiro-me aos processos de comunicação e não à configuração institucional e legal de direitos e deveres onde a ambiguidade normativa é menor – por razões evidentes- apesar de não ser inexistente ou imune a interpretações diversas) um consenso abrangente sobre o significado da democracia. Seria absurdo se tal coisa existisse. Este  suposto consenso, implícito ou explicito, submeteria o pluralismo e o próprio exercício da cidadania ao intolerável jugo da conformidade.  Não encontrar um consenso substantivo na comunicação democrática não implica o fim da democracia nem a defesa de um qualquer niilismo ético. Muito pelo contrário. Demonstra que as liberdades democráticas estão de boa saúde. A liberdade é a mais importante das condições da democracia. E seria sensato não esquecer que  a liberdade diferencia. Naturalmente.

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3 Responses to os meninos à volta da fogueira

  1. anonymouse diz:

    não concordo, levar ás pessoas(supoe-se os moderados) á discussão pelo ultraje não é chamar ninguém á política. A participação política deve ter mais a ver com os interesses próprios e colectivos do que propriamente pela argumentação barata.

  2. ezequiel diz:

    caro anony.,

    eu não estou a falar do “ultraje” apesar de reconhecer que, por vezes, há muitos ultrajes que suscitam debates interessantes.

    O que eu tento comunicar aqui é, na realidade, uma ideiazita muito simples: transformar os “valores e directrizes da deliberação democrática” (seja qual for a interpretação ou paradigma a que recorremos) numa descrição da democracia parece-me infantil.

  3. GL diz:

    Mas alguém ainda consegue ler “Público”?

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