Gestor Pangloss

Enganados de novo. Andámos durante estes anos a aturar os consultores da Merryl Linch, os gestores da Lehman Brothers, os génios financeiros da Goldman Sachs – para vermos, numa só semana, que nem da casa deles sabem cuidar. Quantas vezes os ouvimos dizer que tínhamos de “desregular”, ou que havia controlos demasiado “rígidos” sobre o mercado, ou que não tínhamos dinheiro para pagar saúde aos cidadãos, ou a universidade aos estudantes, ou que os privados fariam melhor com as nossas pensões de reforma? Pois bem, o contribuinte americano deve estar bem lixado, neste momento, ao ver que o dinheiro que não havia para reparar pontes e diques já terá que aparecer para safar todo o sistema financeiro desregulado.

E no entanto há sempre crentes. Tal como havia membros do Politburo que se felicitavam pela robustez da RDA enquanto o Muro de Berlim caía. Alberto Gonçalves, no DN, supõe que as “falências sejam sintoma do perfeito funcionamento” do sistema. António Borges continua a defender a privatização da Segurança Social, alegando que as pensões privadas nos EUA não entraram em colapso, só perderam grande parte do seu valor. E o programa de John McCain diz que o sistema de saúde deve ficar mais parecido com o sistema financeiro.

A ideia é que as falências sucessivas são uma purga “natural” e que a seguir à desregulação temos de desregular mais ainda. Esta gente era capaz de viver na Idade Média e não só dizer que a peste negra era uma coisa óptima como defender que a cura era esfregar os abcessos bubónicos uns nos outros.

No século XVIII, Voltaire criou o Professor Pangloss, personagem que representava o filósofo dogmático que, por mais desgraças que visse – massacres, estupros, escravidão -, dizia sempre que “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”. Não seria difícil recriar, hoje em dia, a personagem do gestor Pangloss ou do político Pangloss. A tua empresa faliu e foste despedido? Isso é estupendo, porque o mercado se liberta espontaneamente das ineficiências. Os bancos deram cabo do jogo? É a purga necessária após um período de exuberância. Houve gente que perdeu casas, seguros de saúde, pensões de reforma? Wunderbar! Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. Estás a morrer de uma infecção generalizada? Sim, mas repara que as bactérias gozam de excelente saúde.

Esta gente fala em desregulação e liberdade mas não percebe que viver sob o jugo destas empresas de sucesso é levar uma vida de regras leoninas, em letra miudinha, em que não resta liberdade alguma para o cliente, o empregado que lhes deu o tempo da sua vida ou o contribuinte que vai ter de lhes salvar o couro. Se há azar, chama–se-lhe ajustamento e espera-se que todos fiquemos saciados com a explicação. Pela mesma lógica, também o terramoto de 1755 foi só um ajustamento das placas tectónicas.

Aos sofistas de mercado falta-lhes entender o que dizia Protágoras: “o Homem é a medida de todas as coisas” – para si mesmo, naturalmente. Mas é de nós mesmos que estamos a falar. O maravilhoso funcionamento da teoria fez vítimas na prática. Esta é a medida última: não o mercado, não as empresas, não o sistema financeiro – mas as pessoas.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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13 Responses to Gestor Pangloss

  1. mesquita diz:

    Há pouco mais de cinco anos, fez-se ouvir um clamor generalizado de que, depois do caso Enron, nada podia ficar como dantes, que a contabilidade “criativa” tinha de desaparecer, etc…viu-se.

    É verdade que agora a situação é mais séria, mas não tenho tanto a certeza de que a era dos mercados desregulados tenha acabado. Talvez umas mudanças cosméticas para dar a impressão que sim, que acabou a pouca vergonha, mas de resto tudo como dantes. Eles são os donos do mundo.

  2. blogue malandro diz:

    Tal como nos casinos, umas vezes ganha-se, outras perde-se!

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  4. joao diz:

    o texto está muito bem escrito e desmascara alguma da teoria ensalsichada a que temos sido sujeitos constantemente

  5. CN diz:

    Considera por um momento que de facto ter lugar tanto erro económico, tantas contas mal feitas não é natural.

    Como não é natural que para dar crédito se possa simplesmente criar a moeda em vez de captar poupança, porque é isso que o sistema monetário faz, baralhando as contas de todos os agentes.

    Acreditar em investimento sem poupança é um misticismo reinante na economia e política.

    Comparável a todas as crendices de que a humanidade se orgulha de ter livrado.

  6. Luis Moreira diz:

    Enquanto não houver responsabilidades pessoais e criminais de quem pratica este género de acções, teremos sempre gente a querer que o mercado seja uma selva. Ora, o mercado de concorrência livre é, por definição, um mercado de responsabilidades bem definidas,onde há consequências, não só ao nível económico e financeiro, mas tambem ao nível social e individual. Aceitar que gestores gananciosos enriqueçam absurdamente,enquanto desbaratam o dinheiro das pessoas que neles confiaram, é o contrário de um mercado de concorrência livre.É um mercado regulado pela ambição desmedida e pela irresponsabilidade.Um verdadeiro Liberal devia ser o maior crítico deste mercado.

  7. Model 500 diz:

    Excelente texto. Parabéns.

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  11. Sérgio diz:

    Excelente.
    A prova da Verdade de uma ideia é a dimensão da violência com que a querem calar.

  12. Antónimo diz:

    Os consumidores norte-americanos devem estar bem lixados. Eu estou é bem f. por nos continuarem a impingir essas tretas e ninguém os mandar para a pqp.

  13. amilcar zenoglio lopes diz:

    Em geral a maioria dos analistas e comentadores estão de acordo que é necessária mais e melhor regulamentação dos mercados e dos produtos em economias liberais ou neoliberais como forma de evitar a selvajaria dos liberalismos, das crises economico-financeiras como a que assola presentemente quase todo o mundo, com raras excepções, por enquanto.
    Pois bem! Mas o problema mais delicado, de maior dificuldade, reside, precisamente na concepção dos modelos, sua implementação e controle, responsabilidades a atribuir e suas penalizações, necessáriamente muito fortes.
    Não venha a suceder, como infelizmente em grande parte dos casos ser ” pior a emenda que o soneto” , isto é; os maleficios da intervenção/regulamentação são piores do que os beneficios que nos trazem.
    Lembremo-nos dos resultados de regimes de economia de direcção central de triste memória. Estava tudo previsto, tudo regulamentado e afinal os resultados foram o que todos conhecemos.

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