Interesses e valores

Na semana passada, em Berlim, realizou-se um debate sobre a Europa com a presença de Mário Soares, o ex-director-geral da UNESCO Federico Mayor Zaragoza e o ex-chanceler austríaco Wolfgang Schüssel, entre outros. Mas não pode haver um debate sobre a Europa que não seja também sobre os EUA, e assim foi.

Há qualquer coisa bizarra no senso comum sobre a União Europeia e os EUA. Por um lado, é comum enfatizar a União Europeia ter um interesse comum. Por outro lado, é costume dizer que a UE e os EUA têm os mesmos interesses. Isto é paradoxal: se a UE não é homogénea o bastante para ter interesses comuns, como pode a aliança ainda mais heterogénea com os EUA ter interesses comuns tão evidentes?

Mesmo à pequena escala, num país como Portugal, os nossos interesses são feitos de conflitos. Num país como os EUA pode haver interesses divergentes entre um estado produtor de etanol e um produtor de petróleo – mas existe uma única máquina política para interpretar e prosseguir estes interesses. Os interesses da União Europeia são muito mais difíceis de determinar. A geografia dá-nos algumas pistas, mas elas não confirmam as premissas tradicionais. Os EUA podem lançar-se em aventuras no Médio Oriente com um certo à-vontade; para a Europa, que tem o Médio Oriente à porta, as coisas não são tão simples. O mesmo se poderia dizer de uma nova guerra fria com a Rússia ou quente com o Irão.

É correcto dizer-se que a Europa não é homogénea nos seus interesses; mas, pela mesma medida, a ideia de que a Europa e os EUA têm os mesmos interesses já viveu melhores dias. Ninguém sabe disso melhor do que os republicanos no poder em Washington: os acólitos de Bush fizeram tudo por dividir a UE; entre os seus partidários o termo “europeu” é quase um insulto; os interesses europeus são tidos em pouca conta por ali.

Só os líderes europeus, curiosamente, parecem não se aperceber disso.

É talvez mais relevante discutir a questão dos valores. Aí, sim, a UE e os EUA partilham felizmente muitos valores, explícitos nas suas leis e documentos fundadores. Mas também partilhamos esses valores com muitos outros países democráticos pelo mundo fora. E na medida em que os valores são mais subjectivos do que os interesses, são também mais dispersos: conheço angolanos, japoneses, israelitas, argelinos e, sim, estado-unidenses que partilham mais dos meus valores do que muitos portugueses.

Talvez isto explique a surpresa do cronista Henrique Raposo, que no último Expresso verberava a ingenuidade dos europeus que apoiam Obama quando este é um símbolo do mundo “pós-europeu”. Ou seja, os europeus que apoiam Obama contra os seus “interesses”. Falando por mim, não me poderia ser mais indiferente o facto. Nas eleições mais importantes deste ainda curto século, prefiro os valores aos interesses.

É legítimo dizer, como lembrou Mário Soares, que se houve afastamento nos valores este ocorreu por causa da administração Bush: foram os republicanos que regrediram na tortura; que defenderam a guerra preventiva; uma minoria cada vez mais poderosa é equívoca na separação entre Estado e religião. Não vejo nenhuma razão para acompanhar esta regressão nos valores e todas as razões para apoiar quem a contrarie.

Que uma maioria de europeus coloque os valores partilhados à frente dos seus supostos interesses só diz bem dessa maioria de europeus.

[ O evento de Berlim serviu de lançamento à versão alemã do livro Um Diálogo Ibérico: a Europa como farol, de Mário Soares e Federico Mayor Zaragoza. Viajei e assisti ao debate a convite da Fundação Bertelsmann/Círculo de Leitores. ]

10.09.2008, Rui Tavares

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