Les belles lettres

Neste Verão, para visitar o meu amigo M., que agora mora no sul de Inglaterra, à beira do Avon, entre vários manors de belo efeito, atravessei duas vezes o Canal. Porque percorri rotas ainda desconhecidas, e graças também a uma prudente toma prévia de Vomidrine, pude apreciar devidamente ambas as viagens. A linha das costas, a silhueta das cidades, o tráfego marítimo, a agitação dos portos – tudo foi visto claramente visto, tudo foi motivo de interesse, tudo foi conversado e reflectido. Na viagem de regresso, reconheci a figura de J.-M.D., famoso pensador francês, que deu uma conferência em Lisboa há poucos anos; enquanto eu observava, notava, comparava – e sobretudo me divertia – J.-M.D. não saía do seu lugar, não via nada, parecia permanentemente absorto em algum problema de tão transcendente importância que o impedia de tomar contacto com o cenário exaltante que o rodeava. Devo retirar deste episódio a confirmação da superioridade da inspiração literária sobre a árida filosofia?

(Une histoire du petit Poulou, adaptação livre)

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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