Vento nas árvores

Num lugar de Trás-os-Montes, num quente fim de tarde de Verão, uma jovem mulher doente, sozinha no primeiro andar de uma casa isolada no campo, revolve-se na cama; através da janela aberta, os ramos de um castanheiro entram-lhe pelo quarto dentro. No rés-do-chão, estão várias pessoas falando, enquanto lá fora a noite cai; subitamente, alguém aponta para o castanheiro e diz: “-Olhem, afinal parece que há vento!” Os outros admiram-se e saem todos para o quintal: nem um só sopro de vento perturba o lusco-fusco, mas a folhagem do castanheiro não cessa de se agitar. Nisto, ouve-se um grito: o marido da jovem doente lança-se pelas escadas acima e encontra-a como que acossada, as costas espalmadas contra a parede, apontando trémula a árvore que se abana violentamente à sua frente; depois cai como que fulminada, morta, e o castanheiro regressa ao seu sossego habitual. Que terá ela visto? Um louco tinha-se escapado antes de um asilo; terá sido ele, escondido na árvore, que lhe terá mostrado a sua face assustadora; foi ele, teve de ser ele, porque essa é a única razão que pode explicar o sucedido. E no entanto… Porque é que ninguém o viu subir à árvore, nem descer? Porque não ladraram os cães? E como pode ele ter sido capturado, apenas seis horas depois, a mais de cem quilómetros dali? Tudo perguntas sem resposta. A acreditar no povo daquele lugar, terá sido a própria Morte que a jovem mulher terá visto (Das Mädchen und der Tod, recorde-se) e terá sido Ela que sacudiu os ramos do castanheiro, diga o que disser a tal da razão.

(Une histoire du petit Poulou, adaptação livre)

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SEXTA | António Figueira
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