A próxima secessão americana?

Obama proclama a paz no Iraque. Obama vem à Europa com o futuro na bagagem. Obama é o novo Kennedy, com a bênção extra da tez indecisa a prometer o milagre da reconciliação inter-racial. Obama diz ao mundo que “podemos”. Obama é o “novo”, contra mais um ancião enrugado dos “maus”. Obama não pode perder. Certo?
De repente, soam as campainhas de alarme: a imparável marcha salvífica da caravana Obama viu-se descarrilada pela rasteira campanha negativa de McCain. Cairá mais um ídolo de pés de barro ou trata-se apenas da crónica miopia de algumas sondagens americanas?
O pânico, embora assim descrito pareça algo pueril, justifica-se. Os EUA hesitam hoje num cruzamento balizado por duas placas. Uma diz “Futuro”; outra “Mais do mesmo”. Melhor: uns certos EUA sentem-se nesta encruzilhada. Porque os votos da bible belt, com as suas legiões de alucinados rapture-ready, valem tanto quanto os outros. Porque os hispânicos até podem nem se sentir confortáveis com a ideia de um afro-americano na presidência. O preconceito racial é uma hidra com rostos muito diversos. E o que a muitos soa a amanhãs cantantes assemelha-se mais a um pré-anúncio do fim dos tempos para outros.
O pior é que a derrota de Obama causaria um trauma à nação americana com efeitos certos ao longo de décadas. Os EUA imaginam-se como a pátria do “que vai ser”; o futuro prenhe de vagas possibilidades que Obama promete surge como uma uma reedição dos sonhos épicos que, retrospectivamente, os americanos reconhecem nos falecidos irmãos Kennedy, ícones trágicos do “que podia ter sido mas não foi”, do porvir nado-morto.
Se McCain conseguir manter-se à tona da onda do fundamentalismo e das campanhas negativas – já agora, evitando gaffes bizarras – vencendo mesmo em Novembro, meia América vai sentir-se traída, órfã de um novo messias, roubada nas suas esperanças. Os contingentes de jovens e outros grupos antes a leste da política que agora parecem ter despertado para o que Lance Bennett chamou “Uncivic Culture”, adoptando novas modalidades de participação política, mesmo que ao lado das estruturas partidárias tradicionais. Os afro-americanos que se vêem de súbito à beira de um horizonte antes longínquo. Todos os desiludidos com a politiquice de Washington e agora hipnotizados pela miragem de um Obama sobre-humano.
Mas, desta vez, a América nem sequer disporia de um assassino demente para arcar com a culpa. Desta vez, milhões seriam Sirhan Sirhan, impunes, orgulhosos e odiados pelos órfãos da sua vítima. A derrota de Obama seria assim uma linha de clivagem a separar estados, etnias, gerações, religiões; uma invisível secessão ziguezagueando entre bairros, entre famílias, entre indivíduos. Uma cicatriz que não iria deixar de doer tão cedo.

Repare-se que nada disto equivale a um entusiasmo desbragado por Obama. A encenação crística erigida em seu redor, a vacuidade da maior parte das suas declarações, a sua tépida aura de santa alma, tudo compõe o retrato de uma personagem boa de mais para ser integralmente verdade. Mas McCain parece incomensuravelmente pior. Um político sem rasgo, já atascado num escândalo da maior gravidade e em recentes manobras espúrias. Um homem que quer ser presidente apoiado em pouco mais do que as suas credenciais de prisioneiro de guerra. Mas se a resistência à tortura bastasse para fazer um grande líder, estaríamos ainda por aqui a ser governados pelo PCP.

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